O sol nasceu frio sobre os telhados,
como se o inverno tivesse aprendido a brilhar.
Havia geada nas árvores,
mas dentro de mim algo criava asas.
Os ventos do sul atravessavam a manhã
com cheiro de silêncio e café distante.
E minha alma, cansada de ser humana,
transformou-se lentamente em pássaro.
Voei sobre campos cobertos de neblina,
sobre memórias que nunca morreram,
sobre amores esquecidos nas estações antigas
onde cartas ainda demoravam para chegar.
O frio não me feriu.
O frio me libertou.
Porque existem dias gelados
em que o coração deixa de ser prisão
e aprende finalmente
a migrar para dentro do céu.