Amanda S. Moraes

A Ferrugem do mundo

Há fumaça escondida no pulmão das cidades,

um gosto metálico dissolvido na chuva,

e ainda assim as pessoas seguem escolhendo espelhos

como quem escolhe destinos.

 

O mundo aprendeu a maquiar feridas:

vende veneno em embalagens luminosas,

ergue templos sobre rios adoecidos

e chama de progresso o som das raízes cedendo.

 

Às vezes eu queria desligar essa percepção,

essa estranha capacidade de ouvir

o fio invisível que costura tudo:

a água, os corpos, os animais, o medo,

as mentiras atravessando gerações

como ferrugem atravessa o ferro.

 

Mas existe algo em mim

que não consegue olhar para a noite

sem procurar fósforos.