Há fumaça escondida no pulmão das cidades,
um gosto metálico dissolvido na chuva,
e ainda assim as pessoas seguem escolhendo espelhos
como quem escolhe destinos.
O mundo aprendeu a maquiar feridas:
vende veneno em embalagens luminosas,
ergue templos sobre rios adoecidos
e chama de progresso o som das raízes cedendo.
Às vezes eu queria desligar essa percepção,
essa estranha capacidade de ouvir
o fio invisível que costura tudo:
a água, os corpos, os animais, o medo,
as mentiras atravessando gerações
como ferrugem atravessa o ferro.
Mas existe algo em mim
que não consegue olhar para a noite
sem procurar fósforos.