Thomas Vasconcellos Ivanov

Sou?

Apesar de tudo,

a metamorfose permanece indecifrável.

Ignoro o que fiz de mim,

e mais obscura ainda me é a razão da mudança.

Imaculado me julguei,

todavia fui por mim mesmo sentenciado

à liturgia do erro.

Lúcido de minha própria ruína,

ainda assim subornei a consciência

para contemplar o abismo

e experimentar-lhe o gosto.

Agora, se de fato me importo,

eis a interrogação que me corrói em silêncio.

Deveria eu padecer

por aquilo que apenas simulo sentir?

Pois o remorso exige uma emoção autêntica,

e tal emoção jamais floresceu em mim,

jamais encontrou morada em minha existência.

Assim permaneço:

confuso, perplexo, fragmentado.

Observo os sorrisos artificiais do mundo

e a dor estampada nos olhos daqueles que feri,

enquanto em mim

não germina culpa,

não desperta empatia,

não ressoa humanidade.

Talvez porque tudo — absolutamente tudo —

não tenha passado

de uma colossal ficção

erigida por minha própria consciência,

um teatro de delírio e dissimulação

no qual fui simultaneamente

autor, espectador e impostor.

E foi então que compreendi:

sustentar uma essência fabricada,

encenar virtudes inexistentes,

habitar máscaras sucessivas;

isso já não me é suportável.

Contudo, entre todas as inquietações,

subsiste a mais devastadora:

se já não sei distinguir

o artifício da essência,

quem, afinal, sou eu?