Apesar de tudo,
a metamorfose permanece indecifrável.
Ignoro o que fiz de mim,
e mais obscura ainda me é a razão da mudança.
Imaculado me julguei,
todavia fui por mim mesmo sentenciado
à liturgia do erro.
Lúcido de minha própria ruína,
ainda assim subornei a consciência
para contemplar o abismo
e experimentar-lhe o gosto.
Agora, se de fato me importo,
eis a interrogação que me corrói em silêncio.
Deveria eu padecer
por aquilo que apenas simulo sentir?
Pois o remorso exige uma emoção autêntica,
e tal emoção jamais floresceu em mim,
jamais encontrou morada em minha existência.
Assim permaneço:
confuso, perplexo, fragmentado.
Observo os sorrisos artificiais do mundo
e a dor estampada nos olhos daqueles que feri,
enquanto em mim
não germina culpa,
não desperta empatia,
não ressoa humanidade.
Talvez porque tudo — absolutamente tudo —
não tenha passado
de uma colossal ficção
erigida por minha própria consciência,
um teatro de delírio e dissimulação
no qual fui simultaneamente
autor, espectador e impostor.
E foi então que compreendi:
sustentar uma essência fabricada,
encenar virtudes inexistentes,
habitar máscaras sucessivas;
isso já não me é suportável.
Contudo, entre todas as inquietações,
subsiste a mais devastadora:
se já não sei distinguir
o artifício da essência,
quem, afinal, sou eu?