Camila Heloise dos Santos

Entre Estrelas e Neurônios

Eu amo os átomos intrinsecamente ligados
Que compõem o seu corpo.

 

Ao vislumbrá-lo, imagino
Cada elétron saltando entre níveis energéticos,
Cada molécula rearranjada,
Emitindo fótons em discretos pulsos de energia.

 

As pontes de hidrogênio das suas águas,
As delicadas polaridades invisíveis,
Cada célula que carrega, em silêncio,
O código necessário para construir você.

 

Genes que codificam proteínas,
Proteínas que sustentam tecidos,
Tecidos que permitem
Seu toque, sua voz, sua consciência.

 

Amo cada neurônio disparando impulsos nervosos,
Despolarizando membranas,
Transformando química em sensação,
E sensação em emoção.

 

Me fascina os milhões de anos de evolução,
A seleção natural,
A deriva genética e ao acaso
Que culminaram nesse improvável ser
Excessivamente consciente da própria existência.

 

E isso me faz pensar
No tempo em que éramos um só.

 

No ancestral remoto que compartilhamos,
Na primeira vida que lentamente se dividiu
Até tornar possível
Você e eu.

 

Penso também
Que cada erro das polimerases ancestrais,
Cada mutação improvável,
Cada recombinação silenciosa,
Poderia ter impedido você.

 

Mas não impediu.

 

E agora o carbono que o constitui,
O nitrogênio dos seus tecidos,
O cálcio dos seus ossos
E o ferro do seu sangue
Trazem a memória de estrelas extintas.

 

Porque cada átomo seu
Já ardeu no interior de explosões estelares.

 

Como dizia Carl Sagan,
Somos o meio pelo qual o universo
Conhece a si mesmo.

 

Do Big Bang
À formação das estrelas e planetas,
Dos primeiros coacervatos
À colonização da Terra,
Até este instante breve


Nesse espaço-tempo em expansão,
Eu me deslumbro
Com a sua improvável existência.

 

E por mais árdua que seja
A luta pela sobrevivência,
Não desistirei de mim
E, por consequência, de você.

 

Porque talvez
O universo ainda seja
Um único organismo disperso.