Snazalac Odraude

O Roteiro da Segunda Chance

Assisto à nossa história como quem vê uma película antiga,
Buscando nos cortes secos a promessa de um final que não foi escrito.
Gostaria que o destino, esse diretor de vontades ambíguas,
Imitasse as telas de cinema onde o adeus nunca é definitivo.

 

Onde o reencontro no café, ou numa rua do bairro,
Não fosse o epílogo de uma perda, mas o prólogo de um retorno,
Reacendendo em nós a chama que eu, por vício, deixei apagar,
Transformando o frio da ausência num abraço de contorno.

 

Filosoficamente, a esperança é uma patologia da memória,
Um desejo de que o tempo, esse fluxo linear e cruel,
Dobre-se sobre si mesmo para reescrever a nossa trajetória,
Dando-nos o \"take\" final, o beijo que rasga o véu.

 

Olho para ti e procuro o roteiro que nos leva de volta,
A cena clássica em que os olhos confessam o que a voz omitiu.
Acredito, com a fé cega de quem já perdeu a escolta,
Que cada encontro nosso é um ensaio para o que ainda não fluiu.

 

Tu tens os teus motivos, e a lógica do mundo te dá razão,
Mas a minha alma opera sob uma metafísica diferente:
A de que o amor verdadeiro é uma eterna reedição,
Onde o passado se recusa a ser apenas antecedente.

 

Dizem que a vida não é filme, que o \"viveram felizes\" é ficção,
Mas eu sigo aqui, no papel de quem aguarda a sua vez,
Nutrindo a esperança de que a nossa próxima interação
Seja a chama que incendeia a cinza da minha própria insensatez.

 

Quem sabe o destino, cansado de ser apenas um juiz severo,
Decida nos dar o papel que a saudade já ensaiou mil vezes?
Eu sou o ator que, no fundo do seu abismo mais sincero,
Ainda espera que a luz se acenda e o amor cure as minhas baixezas.

 

Gostaria que fôssemos séries, ciclos que nunca terminam,
Onde a última cena da temporada é o nosso eterno recomeçar.
Até lá, sou o náufrago que as luzes da cidade iluminam,
Esperando que o próximo encontro nos ensine, enfim, a voltar.