Samuel SanCastro

O Clérigo e a Bruxa

És perfeita para mim
e não somente pelo encaixe matemático
do teu tronco ao meu,
pela heresia ou poesia, anatomia ou contato;
Mas porque somos floresta
indomável e densa, sem rota fixa ou trilha manifesta,
onde o que cresce não pede licença,
e até o erro encontra forma honesta.

Tu, que me tens por excesso e miragem,
bicho papão das emoções sem liturgia,
Sou, todavia, discurso tácito como a euforia da viagem
teu paradoxo quântico que desmente a teoria.
Somos a guerra e a paz, do clérigo e da bruxa
Fé e instinto, controle e vertigem,
a corda trançada, mas frágil que tua regra puxa...

Sou o sátiro que habita  tua floresta virgem.
Teu descontrole perene entre o rito e o incêndio
Descabido de método, tese ou defesa,
de uma reza profana em lento litígio,
Somos fogueira que arde e dissolve a certeza.

E eu, que de ti rio, por nomeares o indizível,
Reduzo ao fogo o que é abismo e ponte,
Me faço a ti, caudaloso e profundo, como corrente imprevisível
Somos colisão e pororoca, como chuva no horizonte.

Se somos um erro cósmico em que a rima persiste;
És minha métrica abstrata, sou teu colapso que insiste.