Como quem não espera
o dia de se perder ou de se achar,
vivi como se não soubesse,
ou sequer imaginasse,
que o fim iria me encontrar.
Vi as horas serem carregadas
por revoadas de borboletas
que bailavam em meu estômago.
Ia e vinha do espelho.
Os minutos eram mais rápidos que eu.
Perdia-me em devaneios,
e as emoções me atropelavam
enquanto pintava os lábios de vermelho.
Corri, afoita,
na busca daquele encontro.
Curiosa, irretocável, convencida,
atravessava as luzes
daquela noite inefável,
ainda capturada
pelo estranho sentimento
de estar à beira da minha partida.
E foi ali, naquela esquina,
onde trilhei meu cortejo fúnebre
à porta daquele bar,
vi findar tudo o que eu era
ao desvanecer-me inteira ao te olhar.
Notei, então:
não eram passos.
Era queda.
A queda livre
que levou o chão
e me tirou o ar.
Ali jaz toda dor desmerecida,
toda ilusão, toda sorte de enganos,
e qualquer medo de amar.
Vi-me sair de mim e me atirar.
Lancei-me livre,
como pássaro que enfim aprende a voar.
Fluí como torrente
de águas límpidas
que emergem virgens da nascente.
Despenhei-me em mar aberto
mergulhei profundo como quem não espera retornar
e debrucei-me sobre tudo
o que em mim morria
a cada sentimento descoberto.
Renasci como quem já não pode
ser apenas si própria.
Como quem ama
desesperadamente
e já não cabe
na estreita solidão de ser só.
Nasci como quem hoje sou: tua.