Hoje de manhã,
o sol entrava torto pela janela da cozinha,
e havia um resto de café frio na caneca branca —
aquela que você sempre pega sem notar.
O rádio tocava uma música antiga,
mas era mais ruído do que melodia.
A manteiga demorava a derreter
e o pão tinha cheiro de lembrança.
Eu estava ali,
mas minha cabeça, não.
Meus dedos mexiam no celular
como se procurassem
uma notificação mais urgente do que o seu olhar.
Foi quando você riu.
Baixinho,
do nada,
com a boca ainda suja de farelo.
E, por um instante, tudo parou:
o relógio, o ruído, minha pressa.
Me perguntei há quanto tempo
não notava esse riso,
nem a curva do seu nariz quando você se distrai,
ou o jeito que seu cabelo toca a nuca
quando você o prende de qualquer jeito.
Às vezes, o amor não parte.
Ele só se senta num canto e espera
a gente lembrar que ele ainda está na sala.
Desde então,
tenho tentado escutar mais os silêncios entre nós.
Eles dizem coisas que a rotina cala.
E toda vez que você sorri sem razão,
eu me lembro:
amar o caminho
é não esquecer de olhar o lado.