Sezar Kosta

O AMOR, O CHEIRO DO PÃO E O SILÊNCIO ENTRE NÓS

Hoje de manhã,

o sol entrava torto pela janela da cozinha,

e havia um resto de café frio na caneca branca —

aquela que você sempre pega sem notar.

 

O rádio tocava uma música antiga,

mas era mais ruído do que melodia.

A manteiga demorava a derreter

e o pão tinha cheiro de lembrança.

 

Eu estava ali,

mas minha cabeça, não.

Meus dedos mexiam no celular

como se procurassem

uma notificação mais urgente do que o seu olhar.

 

Foi quando você riu.

Baixinho,

do nada,

com a boca ainda suja de farelo.

E, por um instante, tudo parou:

o relógio, o ruído, minha pressa.

 

Me perguntei há quanto tempo

não notava esse riso,

nem a curva do seu nariz quando você se distrai,

ou o jeito que seu cabelo toca a nuca

quando você o prende de qualquer jeito.

 

Às vezes, o amor não parte.

Ele só se senta num canto e espera

a gente lembrar que ele ainda está na sala.

 

Desde então,

tenho tentado escutar mais os silêncios entre nós.

Eles dizem coisas que a rotina cala.

 

E toda vez que você sorri sem razão,

eu me lembro:

amar o caminho

é não esquecer de olhar o lado.