Herança
Há quem viva como se o tempo fosse promessa
e há quem descubra cedo demais
que ele é só passagem.
Eu aprendi a existir com intensidade
como quem segura a vida com as duas mãos
porque alguém, antes de mim,
me ensinou que estar aqui já é milagre.
Não se herda só o que cabe em papel ou conta bancária.
Há heranças que não pesam em dinheiro:
há quem deixe amor,
há quem deixe ausência,
há quem deixe trauma,
há quem deixe silêncio.
E há aqueles raros
que deixam um jeito de olhar o mundo
como se cada coisa simples fosse sagrada.
Eu penso na vida como continuidade.
Não começo em mim, não termino em mim.
Sou parte de algo que veio antes
e talvez seja ponte para o que ainda virá.
Mas amar existir
também dói quando se entende a finitude.
Porque tudo o que é bonito
parece cedo demais quando acaba.
E é por isso que eu reparo no vento,
na luz atravessando as coisas,
no som das pessoas vivas,
no absurdo de simplesmente estar aqui.
Talvez viver seja isso:
equilibrar a beleza de existir
com o medo de perder tudo.
E ainda assim, continuar.