Sinvaldo de Souza Gino

Ósculo da traição

Ósculo da traição

Não vem de inimigo a lâmina,  
Nem de estranho a cilada.  
Vem de quem viu partir o pão  
Na tua mesma mesa farta.  
Sorri, te chama de irmão,  
E crava a faca disfarçada.

Ele bate na tua porta  
Com abraço e voz macia.  
Fala baixo: “tô contigo”  
Enquanto vende tua guia.  
O veneno tem gosto doce  
Quando a mão é conhecida.

Não dói o corte da briga,  
Dói o riso antes da queda.  
Traidor não usa máscara,  
Usa teu próprio segredo.  
Te beija no rosto em público  
Pra te enterrar sem medo.

Aprendi que todo Judas  
Tem nome de melhor amigo.  
Que o abraço mais apertado  
Às vezes esconde o perigo.  
E que a morte mais doída  
Vem com selo de abrigo.

Então vigia o copo cheio  
Que a mão aliada levanta.  
Porque tem beijo que salva,  
Mas tem beijo que garganta.  
E o amigo que te mata  
Nunca avisa: ele encanta.