Ósculo da traição
Não vem de inimigo a lâmina,
Nem de estranho a cilada.
Vem de quem viu partir o pão
Na tua mesma mesa farta.
Sorri, te chama de irmão,
E crava a faca disfarçada.
Ele bate na tua porta
Com abraço e voz macia.
Fala baixo: “tô contigo”
Enquanto vende tua guia.
O veneno tem gosto doce
Quando a mão é conhecida.
Não dói o corte da briga,
Dói o riso antes da queda.
Traidor não usa máscara,
Usa teu próprio segredo.
Te beija no rosto em público
Pra te enterrar sem medo.
Aprendi que todo Judas
Tem nome de melhor amigo.
Que o abraço mais apertado
Às vezes esconde o perigo.
E que a morte mais doída
Vem com selo de abrigo.
Então vigia o copo cheio
Que a mão aliada levanta.
Porque tem beijo que salva,
Mas tem beijo que garganta.
E o amigo que te mata
Nunca avisa: ele encanta.