ondavida amar

ResistĂȘncia apenas

O homem percorre a vida como quem atravessa uma paisagem em ruína, convencido de que avança, embora talvez apenas mude de cenário sem alterar o seu lugar essencial. Vai por mares agitados, por vales sem luz, por desertos onde a sede parece mais funda do que o corpo que a suporta, e acredita, nessa travessia, que existe um destino capaz de justificar o esforço.
Mas o tempo, que tudo corrói sem pedir licença, acaba por impor a sua lei ao corpo. E o corpo, por mais vontade que tenha, cede. É então que surge a suspeita terrível: talvez nunca tenha havido caminho, apenas a ilusão dele; talvez a chegada nunca estivesse à frente, mas no próprio ponto de partida, onde sempre estivemos, imóveis dentro da aparência de movimento.
Essa hipótese modifica tudo. Se o percurso foi feito na direção errada, então cada passo, cada perda e cada combate carregam um equívoco profundo. E, no entanto, mesmo essa revelação não desfaz a travessia já cumprida. O que foi vivido não se apaga porque se descobriu tarde demais o seu sentido possível ou a sua ausência dele. A vida continua a ser vida, ainda que seja lida depois como erro, como desvio ou como repetição.
Resta então a pergunta decisiva: valeria a pena viver tudo outra vez, se o resultado fosse o mesmo? Talvez a resposta não esteja no resultado, mas na forma como se atravessa o inevitável. Porque o fim pertence a todos, mas o modo de o habitar não é igual em todos. Há quem morra sem ter vivido, quem viva como se já estivesse morto, e quem, mesmo mirrando, ainda conserve uma lucidez ferida diante do absurdo.
Talvez seja isso que nos une: a consciência de que algo em nós definha enquanto olhamos o definhamento dos outros. Ontem, hoje, agora e sempre, repetimos a mesma aproximação ao desconhecido. E se não há saída, ao menos há a vigília; se não há certeza, ao menos há o gesto de observar. Nesse gesto talvez ainda resida uma forma mínima, mas real, de resistência; Somos aquilo até onde a resistência nos leva; E o que somos quando ela termina? Uma ideia talvez.