Tem abraços que são presentes,
e abraços que viram presentes.
Os abraços que são presentes
moram nos hábitos da gente.
Já os abraços que viram presentes
fazem vontade de moradia,
ainda que por milésimos a mais.
Porque existem braços
que não sabem ficar,
não por falta de afeto,
mas porque nunca lhes disseram
que poderiam ficar.
Mas estes,
quando prolongam o abraço por milésimos a mais, transformam o toque em abrigo
e o silêncio em cuidado.
E talvez seja isso, sabe:
há afetos que, de tão raros, viram eventos
que, quando finalmente acontecem,
não parecem abraço —
parecem lugar, parecem abrigo.