Renna Gomes

Um dia de folga

Quando todos éramos lixo,

havia uma estranha justiça:

ninguém acima, ninguém salvo,

só a queda dividida.

Doía, mas era coletivo,

e nisso existia um tipo de pertencimento.

Agora inventaram os “escolhidos”,

ungidos não por mérito,

mas por privilégios silenciosos.

E o que antes era chão comum

virou abismo.

De um lado, quem sobe,

iluminado por mãos invisíveis.

Do outro, quem some,

descartado sem nome.

E eu, sem surpresa,

sei exatamente onde me deixaram.