Francisco Queiroz

Misto-quente

Zumbido, vozes e motores.

Um borrão na mente,

não menos mecânica.

 

O balcão cheio de delícias,

os olhos perdidos na tela,

o misto-quente foi servido

e ingerido com desinteresse.

 

Na fila desordenada,

a espera é enfadonha,

dois dedos de prosa qualquer;

o clichê sobre o tempo.

 

Na rua, um pede esmola.

— Pode pagar um lanche?

Olhos expressivos cansados,

o corpo corado de fuligem.

 

O pagamento vem constrangido.

O sinaleiro abre a faixa.

A mente assimila:

não somos tão diferentes.

 

Antes de atravessar, olha para trás.

Vê o olhar expressivo, feliz

degustando o misto-quente.

 

O que foi mesmo que eu comi?