Acho que algumas despedidas
começam muito antes do adeus.
Elas nascem devagar,
nos silêncios,
nas ausências,
na sensação de estar vivendo algo sozinho
enquanto o coração ainda insiste em chamar de “nós”.
E Deus sabe
o quanto eu fui inteira nisso tudo.
Me guardei.
Esperei.
Fui leal até nos pensamentos.
Enquanto o mundo me oferecia distrações,
eu escolhia permanecer.
Porque quando eu amo,
não entrego partes.
Entrego presença,
verdade
e fidelidade
mesmo quando ninguém está vendo.
Talvez por isso tenha doído tanto perceber
que existem distâncias
que não começam no corpo,
mas na intenção.
Porque às vezes a traição
não mora no toque,
mora na procura.
No interesse desperdiçado em outros lugares.
Na necessidade de encontrar fora
o que alguém jurou valorizar dentro.
E mesmo sem promessas ditas,
meu coração tratava você
como escolha.
Esses dias tive um sonho estranho.
Você parecia em paz,
seguindo caminhos
onde eu já não existia.
E acordei com aquela sensação silenciosa
de quando Deus responde
o que a gente passa noites tentando negar.
Talvez algumas pessoas
entrem na nossa vida
só até certo trecho da estrada.
E talvez amar alguém
também seja entender
quando chegou a hora
de parar de esperar sozinho.
Então eu vou seguir também.
Sem raiva.
Sem precisar ferir.
Mas levando comigo a certeza
de que fui sincera até o fim.
Só não dá mais
pra permanecer parada
em um lugar
onde só eu permanecia e acabei fugindo de mim.