O parque estava vazio como de costume, o meu brinquedo de infância preferido, aquele o qual eu estava a contemplar, era um baloiço, aquele que quando pequeno eu ficava com medo de cair e de cara no chão tombar, é engraçado relembrar, eu pensei \"Porque não usar?\" mas tinha um aviso, que era para crianças a partir de 3 anos, mas a criança que um dia fui ainda reside dentro de mim, então pensei que podia usar essa desculpa para caso o fiscal aparecesse para me fiscalizar, quando me sentei nele, levemente comecei a tentar balançar os pés, mas as minhas pernas longas os faziam raspar o chão, pois já tinha crescido muito desde aquela época, e foi nesse momento que memórias adormecidas da minha infância começaram a despertar e os meus olhos começaram a lacrimejar, porque são memórias que não poderei voltar a recriar nem revivenciar, enquanto chorava ouvia uns risos infantis e uma voz meiga dizia palavras como: \"Vamos ser amigos\", \"Não estás sozinho\" mas sabia que estava sozinho porque sempre que olhava ao meu redor não via ninguém, mas era um risinho bem peculiar que já teria ouvido de algum lugar, mas não conseguia me lembrar.
Depois de uns instantes sinto um leve toque e quando olho para trás, vejo que é uma criança, uma menina trançada, ela cuidadosamente me empurrava, enquanto ria, era o mesmo riso de antes, a cada empurrãozinho ela me encorajava a voar mais alto, e a cada vez eu ia hesitando até parar de baloiçar, então ela me perguntou no que estava pensar e o porquê de eu estar a chorar, e eu respondi: \"Quero uma forma de o céu poder alcançar mas ainda não reuni coragem o suficiente para a minha vida tirar, e infelizmente a minha expectativa de vida ainda não está perto de acabar, pois ainda sou muito novo, estou cansado de sofrer por ter de esperar e ter de esperar para sofrer, então bebi uma redbull para ver se me crescia asas, mas de nada está a adiantar, então pensei que se usasse o baloiço para chegar ao céu talvez possa lá ficar para nunca mais voltar.\" ela riu e no meu ouvido começou a sussurrar, que não devo a minha única vida desperdiçar, que ainda tenho um álbum de memórias por completar, e momentos com pessoas incríveis que ainda não conheci para compartilhar, e ela completou: \"Ninguém quer partir e na hora de abrir o álbum se deparar com ele incompleto por ter escolhido ir mais cedo para o outro lugar\".
Ela pediu para que enxugasse as minhas lágrimas e prometeu que me ajudaria a o céu alcançar com a condição de que eu prometesse à terra voltar, e em um tom meio irônico me pediu uma pequena lembrança caso eu me lembrar, assim fiz, eu prometi, ela agradeceu e sorriu para mim, assim devagarinho ela começou a empurrar o baloiço até impulso o suficiente eu conseguir ganhar para as mãos poder soltar. Quando decolei em direção ao céu foi mágico, parecia mesmo que conseguia voar, enquanto decolava eu olhava para o chão e a menina trançada ainda estava lá, ela acenava para mim e eu sorri de volta para ela, e quando finalmente alcancei o céu, eu voltei como havia prometido.
Ah! quase me esqueci, que também trouxe isto comigo, uma estrela, a lembrança que ela me tinha pedido, escolhi a mais cintilante, mas a menina trançada não estava mais lá, então decidi trazê-la comigo para deixá-la no quarto, quando cheguei a casa fui-me deitar, deixei a estrela em cima da cabeceira do lado da cama, para as noites no quarto iluminar, aí uma paz interna começou a surgir dentro de mim, me preenchendo de alegria e vigor, era como se finalmente a depressão tivesse chegado ao fim, foi nesse momento que percebi que a menina que me veio confortar era o espírito de uma menina falecida, ela estava dentro de mim, abraçada junto da minha criança interior, para sozinho eu nunca mais ter de me sentir ou ficar, mesmo depois de anos toda a vez que saio para caminhar, ao longe vejo o vulto da minha criança interior e o da menina trançada juntos no parque a brincar.
- luminoso, o vitorioso -