UMA ESTRANHA NAVE ESPACIAL
No meu quintal, o silêncio fez-se espanto,
Quando uma nave, vinda do vazio,
Pousou sem um ruído, sem um canto,
Sem cheiro a fumo, a metal ou a frio.
Fui ver de perto o vulto de prata,
A porta abriu-se num feixe de luz,
E numa cena que a razão desata,
Vi o caminho que o meu chão conduz.
Saíram três galinhas, passo lento,
E um galo de crista, firme e altivo,
Que no meio daquele estranho evento,
Olhou para mim, solene e vivo.
Avançou o bicho, em tom ameaçador,
E em bom português — pasmo fiquei —
Disse: \"Precisamos de milho, senhor,
Podes dar-nos algum? tu tens, eu bem sei.\"
— \"Não, mestre galo\", respondi tremendo,
\"Só tenho feijão aqui na despensa.\"
E ele, o meu medo logo entendendo:
— \"Também serve, amigo, não há ofensa.\"
Fui buscar o feijão, grão por grão,
Ofereci ao galo, que o bico baixou;
\"És muito gentil\", disse com gratidão,
E para a nave a tropa convocou.
As galinhas entraram, ele foi atrás,
A porta fechou-se e o brilho sumiu,
Deixando o quintal de novo na paz
e a vizinhança esta cena não viu.
No dia seguinte, ao sol da manhã,
Duvido se foi sonho ou realidade
Mas guardo a lembrança, estranha e sã,
Dessa astronómica amizade.