Pensamentos do Mar

O Comboio.

O Comboio

 

Eu choro.

Não pela tristeza.

Não pela alegria.

Não pela raiva.

Não pela dor.

Mas pela certeza, aquela leve certeza,

Aquele subtil pensamento que me invade no silêncio vazio, mas barulhento,

Aquela sensação de arrepio que me é causada normalmente pelo vento,

Aquela luz filtrada pela janela do meu quarto, naquela hora que nem é hora nem deixa de ser,

De que eu já não volto, nada volta, tudo vai.

 

Eu choro,

Não pelo futuro incerto,

Pois o futuro é certo, mais certo que a certeza.

O futuro é o começo, e o fim, e o durante.

E é tão próximo como este instante,
Em que choro de clareza.

Choro da certeza,

De que o ignorante não chora, o ignorante não sofre.

O leigo não sabe, e como não sabe, não chega a saber.

Não sabe o futuro, o começo, o fim e a certeza.

Não sabe que aquela tarde de verão, cujas vozes estão nítidas mas as caras estão impercetíveis,

Que chamavam para o interior daquela casa, aquela casa branca, pequena com o telhado vermelho e o céu azul ao fundo,

Já não voltam. Elas existem, mas já não são o que eram.

 

 

Feliz é aquele que não sabe nem quer saber,

Feliz é aquele que sofre por tristeza, se alegra por alegria e se enerva por raiva.

Feliz é aquele cujas sensações estão aliadas ao sentimento direto, e não se misturam.

Feliz é aquele cujas vozes ainda existem, cujas vozes ainda estão, e não tem a consciência de que um dia elas vão.

Desaparecem num nevoeiro branco, súbito, que apesar de denso, não demos por ele.

Feliz é o ignorante que é certo de nada, e por essa certeza tão estupidamente inocente, é feliz.

 

Que triste que são, estas manhãs invernais, de céu nublado,

Em que sei tudo. Sei que a ansiedade juvenil pelo verão desapareceu,

Sei que a lareira não voltou a estar acesa.

Sei que os cortinados não voltaram a ser abertos.

Sei que as janelas olham, envergonhadas e tristes, com a sua luz fusca para a sala de estar,

Escura e empoeirada, com os móveis antigos ainda lá colocados.

Sei que aquela casa branca, com o telhado vermelho e o céu azul, ainda lá está,

Mas o vermelho já não é vermelho,

O branco já não é branco,

O céu certamente já não é azul.

 

Choro porque sei.

Choro porque não escolhi saber.

E ainda assim sei.

 

 

 

 

 

 

Choro porque é obrigação lidar com estas pessoas,

Estas criaturas felizes e inconscientes,

Da guerra, das doenças, da política

(Esta “política”)

Da efemeridade da vida,

Da nostalgia da infância.

E o pior, não são os felizes.

São os infelizes que não são felizes nem deixam os outros ser.

São as gralhas.

Que gritam e riem-se ao meu ouvido,

Que cheiram o meu sofrimento como abutres.

Eles não querem saber.

E enquanto se riem, eu afundo-me.

Afundo-me como se estivesse no fundo de um buraco,

Cujas paredes são tão curvas e lisas que por mais que tente subir,

Acabo por descer.

Começou a chover.

É inútil tentar, a superfície é escorregadia,

Só iria gastar a energia que me resta para sobreviver.

Sinto a chuva na minha pele.

O sangue escorre por esta parede como um presságio.

As gotas parecem facas na minha pele,

Eu grito por ajuda, mas de que adianta?

Eles riem-se, olham como se eu fosse um monstro enjaulado que não merecesse ser escutado, libertado e acarinhado,

Riem-se, como gralhas.

E como abutres, circulam à volta do poço.

É uma questão de tempo.

O futuro é certo.

Deito-me no chão molhado e frio,

Conformo-me com esta existência inútil,

Fecho os olhos.

Os carris começam a chiar.

Vem aí o comboio.

Nunca um som mecânico foi tão reconfortante.

 

 

Acordo, estou na sala. A sorrir.

Estou sempre a sorrir, bem disposta e animada.

Estou sempre disposta a ajudar e a ouvir e a sacrificar.

E quem se sacrifica por mim?

Quem ouve e ajuda?

Oiço o comboio ao fundo.

Nunca um barulho mecânico foi tão reconfortante

 

Mar, 2026.