Sinvaldo de Souza Gino

Poema: A Pedra no Tempo

A Pedra no Tempo

 

A pedra sobe a montanha fria,  

Nos ombros de quem não descansa,  

O suor desenha a teimosia,  

E o céu assiste sem esperança.  

Mas Sísifo ri da própria via,  

Pois na descida encontra a dança.

 

O sol castiga, o vento zomba,  

A gravidade puxa o destino,  

Cada passo é luta que retomba,  

No peito cansado de menino.  

Porém a alma não se assombra:  

Recomeçar é o seu hino.

 

Lá do alto, o deus vigia,  

Crendo que o castigo é prisão,  

Mas o mortal fez da agonia  

Uma espécie de oração.  

Se a pedra volta todo dia,  

Volta também a obstinação.

 

Não há vitória na sentença,  

Nem derrota no recomeço,  

Só a vida que não dispensa  

O peso que eu mesmo arremesso.  

Faço do fardo minha crença:  

Carrego, logo, permaneço.

 

E quando a noite enfim desaba,  

Sobre o cansaço do rochedo,  

A pedra dorme, o corpo acaba,  

Mas o sonho ignora o medo.  

Porque amanhã a luz se trava,  

E eu volto ao monte, sem segredo.