A Pedra no Tempo
A pedra sobe a montanha fria,
Nos ombros de quem não descansa,
O suor desenha a teimosia,
E o céu assiste sem esperança.
Mas Sísifo ri da própria via,
Pois na descida encontra a dança.
O sol castiga, o vento zomba,
A gravidade puxa o destino,
Cada passo é luta que retomba,
No peito cansado de menino.
Porém a alma não se assombra:
Recomeçar é o seu hino.
Lá do alto, o deus vigia,
Crendo que o castigo é prisão,
Mas o mortal fez da agonia
Uma espécie de oração.
Se a pedra volta todo dia,
Volta também a obstinação.
Não há vitória na sentença,
Nem derrota no recomeço,
Só a vida que não dispensa
O peso que eu mesmo arremesso.
Faço do fardo minha crença:
Carrego, logo, permaneço.
E quando a noite enfim desaba,
Sobre o cansaço do rochedo,
A pedra dorme, o corpo acaba,
Mas o sonho ignora o medo.
Porque amanhã a luz se trava,
E eu volto ao monte, sem segredo.