Luana Santahelena

Manual de SobrevivĂȘncia ao Vendaval do Amor

O amor chegou como vento de fim de tarde —

disfarçado, educado, quase pedindo licença.

Mexeu nas cortinas da minha rotina

e eu, inocente, pensei:

“Ah, é só uma brisinha emocional.”

 

Erro clássico.

 

Ele voltou.

E dessa vez veio com diploma em bagunça criativa.

Percorreu os corredores da minha vida

como corretor animado dizendo:

“Vamos reformar tudo!”

 

Desalinhou meus papéis organizados por cor,

espalhou certezas no chão da sala,

abriu gavetas onde eu escondia

medos vintage em perfeito estado de conservação.

 

Descobri, então:

o vento não marca horário.

Ele entra.

Ele muda os móveis.

Ele joga fora o que você jurava precisar.

 

Sim, houve tempestades —

ciúmes em modo relâmpago,

inseguranças em versão tropical,

rajadas tão intensas

que quase instalei vidros à prova de sentimento.

 

Mas, convenhamos,

até o vendaval tem seu lado faxineiro.

 

Levou poeiras emocionais acumuladas,

varreu mágoas que ocupavam espaço demais,

arrancou folhas secas do meu “eu edição passada”.

 

Hoje, o amor é vento constante —

não mais furacão categoria drama,

mas brisa que refresca.

 

Circula em mim como ar condicionado da alma,

renova meus dias

e me empurra gentilmente

para horizontes que eu fingia não ver.

 

Conclusão do relatório:

não fui bagunçado — fui atualizado.

O vento não destruiu minha casa,

apenas fez aquela reforma

que eu adiava há anos.

 

E se um dia soprar mais fraco,

ainda saberei:

fui oficialmente atingido

por algo invisível

e deliciosamente inevitável.

 

Porque o amor é isso —

vento que desarruma,

mas deixa tudo

estranhamente melhor.