O amor chegou como vento de fim de tarde —
disfarçado, educado, quase pedindo licença.
Mexeu nas cortinas da minha rotina
e eu, inocente, pensei:
“Ah, é só uma brisinha emocional.”
Erro clássico.
Ele voltou.
E dessa vez veio com diploma em bagunça criativa.
Percorreu os corredores da minha vida
como corretor animado dizendo:
“Vamos reformar tudo!”
Desalinhou meus papéis organizados por cor,
espalhou certezas no chão da sala,
abriu gavetas onde eu escondia
medos vintage em perfeito estado de conservação.
Descobri, então:
o vento não marca horário.
Ele entra.
Ele muda os móveis.
Ele joga fora o que você jurava precisar.
Sim, houve tempestades —
ciúmes em modo relâmpago,
inseguranças em versão tropical,
rajadas tão intensas
que quase instalei vidros à prova de sentimento.
Mas, convenhamos,
até o vendaval tem seu lado faxineiro.
Levou poeiras emocionais acumuladas,
varreu mágoas que ocupavam espaço demais,
arrancou folhas secas do meu “eu edição passada”.
Hoje, o amor é vento constante —
não mais furacão categoria drama,
mas brisa que refresca.
Circula em mim como ar condicionado da alma,
renova meus dias
e me empurra gentilmente
para horizontes que eu fingia não ver.
Conclusão do relatório:
não fui bagunçado — fui atualizado.
O vento não destruiu minha casa,
apenas fez aquela reforma
que eu adiava há anos.
E se um dia soprar mais fraco,
ainda saberei:
fui oficialmente atingido
por algo invisível
e deliciosamente inevitável.
Porque o amor é isso —
vento que desarruma,
mas deixa tudo
estranhamente melhor.