Sinvaldo de Souza Gino

Poema: Sagrado e Profano

Sagrado e Profano

 

Escreveram na pedra e no pergaminho  

que o homem nasceu perto do altar.  

Primeiro barro, primeiro caminho,  

primeiro nome que Deus quis chamar.

 

Deram a ele o púlpito, a lei, o cajado,  

o direito da voz que ordena e conduz.  

Disseram: “Ele é o templo consagrado,  

imagem direta, reflexo da luz.”

 

À mulher coube o lado de fora,  

a porta da queda, o gesto maldito.  

Chamaram de profano quem chora,  

de impura a carne que gerou o rito.

 

Assim a história partiu a criação:  

um com a chave do céu na mão,  

outra com a culpa da expulsão,  

carregando Eva em cada geração.

 

Ele ora no alto, ela cala embaixo.  

Ele dita o santo, ela esconde o pecado.  

E o mundo aprendeu, de baixo em baixo,  

que o sagrado era macho e o profano, dobrado.

 

Foi tese de trono, foi letra de sábio,  

foi cerca erguida entre corpo e reza.  

Mas o barro lembra, mesmo em silêncio,  

que dividir o divino é a maior profaneza.