Sagrado e Profano
Escreveram na pedra e no pergaminho
que o homem nasceu perto do altar.
Primeiro barro, primeiro caminho,
primeiro nome que Deus quis chamar.
Deram a ele o púlpito, a lei, o cajado,
o direito da voz que ordena e conduz.
Disseram: “Ele é o templo consagrado,
imagem direta, reflexo da luz.”
À mulher coube o lado de fora,
a porta da queda, o gesto maldito.
Chamaram de profano quem chora,
de impura a carne que gerou o rito.
Assim a história partiu a criação:
um com a chave do céu na mão,
outra com a culpa da expulsão,
carregando Eva em cada geração.
Ele ora no alto, ela cala embaixo.
Ele dita o santo, ela esconde o pecado.
E o mundo aprendeu, de baixo em baixo,
que o sagrado era macho e o profano, dobrado.
Foi tese de trono, foi letra de sábio,
foi cerca erguida entre corpo e reza.
Mas o barro lembra, mesmo em silêncio,
que dividir o divino é a maior profaneza.