Céu

Madrugadas Foram Feitas Para Mim

Quando mais jovem, eu chorava por não ter amigos.

Chorava por ser considerada uma pessoa chata.

 

Quando mais jovem, não conseguia olhar nos olhos de ninguém sem que a ansiedade me consumisse.

Então, olhava para os pés — nunca acima dos joelhos.

 

Quando mais jovem, multidões sempre foram meu ponto fraco.

 

Desde cedo, me importei demais com o que pensavam de mim.

E isso sempre me afetou.

Agora, um pouco mais velha, já não me importo tanto.

Não há como destruir algo que já está quebrado.

 

Afinal, para que foram feitas as madrugadas?

E as ruas escuras e vazias?

Para que existem os lugares onde não há ninguém?

E todo esse silêncio…

Foram feitos para mim?

 

É na madrugada que encontro a ausência,

E, sozinha, posso finalmente sentir

a paz e a solidão

que já não me machucam mais.

 

Gosto de sair quando todos já estão em suas casas.

Gosto do silêncio, do vento…

e de correr.

 

Correr sem rumo,

até que meus pulmões não suportem mais,

até que o mundo desapareça

e reste apenas eu.

 

Não quero que me vejam.

Quero ser sentida.

 

Queria poder cuidar de todas as pessoas que carregam dores invisíveis,

protegê-las dos próprios demônios,

confortá-las…

e fazê-las sentir que são alguém.

 

Porque eu sei como é.

 

Quando estou sozinha,

a vida parece, enfim, valer a pena.

 

Durante o dia,

a vida é apenas suportada.

 

As madrugadas foram feitas para estar acordada.

Os dias, para adormecer.

 

Já são 7h.

A madrugada se despede.

Agora, é minha vez de dormir.

Boa noite, caro leitor.