Ações de afogadilha
Ele era fogo de palha e pavio curto.
Falava primeiro, pensava depois.
Quebrou amizade, perdeu contrato,
achou que o mundo devia ser veloz.
Um dia a pressa cobrou com juros.
Ficou sem voz, sem chão, sem saída.
Era afogadilha: sem culpa de outros.
Só ele, a água e a porta sumida.
No fundo do poço, achou um silêncio.
Pela primeira vez ouviu o próprio peito.
Contou os erros igual conta os dedos
e viu que dez segundos mudam tudo feito.
Voltou devagar, pedido na mão.
Reconstruiu ponte com palavra mansa.
Aprendeu que coragem sem direção
é só barulho que não descansa.
Hoje ele respira antes da frase.
Pensa a jogada antes do passo.
Descobriu que a vida não é corrida
e que freio também é abraço.
Não desfez todo o estrago antigo,
mas plantou cuidado no lugar da pressa.
A água baixou. A porta abriu.
E ele saiu sem precisar de promessa.
Moral que ficou:
Quem quase se afoga aprende a nadar.
E quem aprende a nadar
ensina o mar a respeitar.