Sinvaldo de Souza Gino

Miniconto: Ações de afogadilha

Ações de afogadilha

 

Ele era fogo de palha e pavio curto.  

Falava primeiro, pensava depois.  

Quebrou amizade, perdeu contrato,  

achou que o mundo devia ser veloz.

 

Um dia a pressa cobrou com juros.  

Ficou sem voz, sem chão, sem saída.  

Era afogadilha: sem culpa de outros.  

Só ele, a água e a porta sumida.

 

No fundo do poço, achou um silêncio.  

Pela primeira vez ouviu o próprio peito.  

Contou os erros igual conta os dedos  

e viu que dez segundos mudam tudo feito.

 

Voltou devagar, pedido na mão.  

Reconstruiu ponte com palavra mansa.  

Aprendeu que coragem sem direção  

é só barulho que não descansa.

 

Hoje ele respira antes da frase.  

Pensa a jogada antes do passo.  

Descobriu que a vida não é corrida  

e que freio também é abraço.

 

Não desfez todo o estrago antigo,  

mas plantou cuidado no lugar da pressa.  

A água baixou. A porta abriu.  

E ele saiu sem precisar de promessa.

 

Moral que ficou:  

Quem quase se afoga aprende a nadar.  

E quem aprende a nadar  

ensina o mar a respeitar.