Raquel Costa

Devaneio

Olá, Ashley. Olho as estrelas, as constelações... E imagino seu belo rosto figurado entre elas... Quando nos conhecemos, signo foi uma das primeiras coisas que você me perguntou sobre, e eu naquela época imediatamente pensei em só sair daquele café e desmarcar nosso encontro, pois essas coisas envolvendo signo, horóscopo, etcétera, sempre me incomodou, mas sua beleza, radiante a mais de 20 metros, me fazia apenas a cooperar com tais assuntos teus.

Sinto esta brisa levemente gelada em meu corpo, e logo me lembro dos calafrios que sentia quando você saia sem minha companhia. Não por ciúmes, mas por medo que você se envolvesse em algum acidente. Você me pedia para eu não ligar com isso, principalmente por esta ação te dar lembranças de relacionamentos passados, e eu falava que não iria, mas a normalidade eu apenas demonstrava por fora, por dentro, não posso negar que de vez em quando eu ficava com muito medo.

Olho para baixo, vejo meus pés pairando no ar, enquanto carros passam nas ruas, com suas buzinas ecoando no ambiente, horário de pico, sexta-feira, todos cansados por terem terminado seus afazeres braçais da semana. Já eu? Fui demitido da empresa que eu trabalhava a 7 anos na semana passada. Meu chefe me dizia que eu estava \"Muito mal produtivo\", por um motivo que, eu até lhe contaria, mas todos nós sabemos que ninguém no seu ambiente de trabalho quer saber das suas perdas, das suas conquistas, dos seus medos, inseguranças...

Ela sabia como eu tinha medo de altura, mas estar aqui parece tão natural quanto te levar àquele café que íamos quase todo dia em 2020. Aquela era a ambientação perfeita para encontros, músicas calmas, boa iluminação... Você sempre pedia aquele capuccino com canela, que eu odiava, mas eu tomava mesmo assim, porque eu me mataria se eu visse aquele rosto sorridente com uma sequer expressão de infelicidade, e essa frase se torna até irônica considerando a situação mental e cenarial em que eu me encontro neste momento.

Cada buzina, cada sirene, cada tumulto de pessoas que eu vejo, é como se fosse o gatilho de uma granada de atordoamento diretamente jogada em meu cérebro, só que ao invés de uma simples cegueira temporária, é como se meu cérebro pegasse as memórias exatas daquele dia, que te vi deitada no chão, enquanto outras pessoas fofocam e comentam sobre o ocorrido, quase como uma exposição a um museu, e me fizesse lembrar detalhadamente de todas elas, e cada uma mais realista que a anterior. É quase como se o que me fez querer falar com você pela primeira vez naquele intervalo no primeiro dia de aula em 2019, quisesse também que eu passasse a te odiar desde que vi você dentro daquela ambulância às pressas para um hospital.

Seria eu, meu maior inimigo? Você era como uma droga pra mim. Os 5 minutos que a gente parava pra conversar, era como os tantos maços de cigarro de eu fumei da semana passada pra cá para eu esquecer dos meus problemas. Eu sempre tive problemas psicológicos, e você era meu maior anestésico para eu esquecer deles, e pelo menos o único que não envolvia minha lenta autodestruição.

Nunca estive tão perto de você desde aquele dia e, só queria dizer, pra você me esperar..