A pseudoescritora

A Liturgia do SilĂȘncio

Eu poderia passar dias em silêncio.

Não o silêncio trágico dos mártires,
nem o silêncio severo dos monges.

Um silêncio colecionável.

Dobrado, etiquetado, guardado em gavetas.

Não para apreciar minha própria companhia,
isso seria vaidade,
mas para contemplar.

Contemplar como quem observa um relógio antigo persistente.
A poeira flutuando às 6h17.
O mundo fazendo seus pequenos mecanismos de sobrevivência.

E eu seguiria, religiosamente, minha rotina.

Como um sacerdote doméstico.

Levantaria entre cinco e seis da manhã,
como convém às pessoas misteriosamente matinais.

Sem palavra alguma.

A cama seria arrumada com uma cegueira perfeccionista, quase militar.
Lençóis esticados como mapas.

Escovaria os dentes depressa
curto, eficiente, quase cerimonial.

Vestiria minhas roupas como quem se prepara para uma missão de importância discutível.

E então: o café da manhã.

Um pequeno ritual.
A xícara.
A colher.
O pão.
A manteiga aplicada com geometria.
Tudo em paz.

Tudo em silêncio.

Como se o mundo inteiro tivesse decidido não interromper.

Depois do café, eu sairia para observar.
Não exatamente passear.
Observar.

A correria das pessoas.
Os atrasados.
Os apressados.
As senhoras com sacolas.
Os homens discutindo em esquinas como se decidissem o destino do planeta.

Ônibus fadigados.
Portas abrindo.
Sapatos apressados sobre a calçada.

Eu veria o movimento das pessoas como quem assiste um balé involuntário.

Um caos coreografado.
Sentaria num banco.
Talvez numa praça.
Talvez perto de uma padaria.
E contemplaria o mundo se mover sem a obrigação de acompanhá-lo.
Tomando nota mental dos detalhes.

Um privilégio.

Voltaria para casa com a sensação de ter testemunhado algo secreto.

No almoço, eu seria um maestro.
Picaria os vegetais religiosamente.
Cenouras em segmentos exatos.
Tomates como pequenas luas disciplinadas.
Os legumes disciplinados.

O prato principal aquecido com reverência.

Abriria a geladeira com velocidade implacável
e escolheria,
naturalmente,
um bom e fresco suco de caju.

Simples.
Delicioso.
Decente.

Forçaria a bandeja de gelo como quem extrai segredos do universo.
Um cubo. Dois. Três. Quatro.

Jamais cinco.

Quatro é a medida formidável.
E então a tarde começaria.

Haveria café.
Sempre um café.
De preferência servido tarde demais.

Tomado devagar.
Com algo pequeno ao lado. Talvez um biscoito.

Talvez nenhuma companhia além do relógio.

Depois eu me ocuparia com algumas coisas minuciosas.

Um crochê.
Um caderno de anotações.
Colecionar pensamentos inúteis.

Consertar algo que nunca esteve quebrado.
Ler duas páginas e passar vinte minutos olhando para uma frase.

E às vezes eu sairia.
Andaria pela rua sem destino heroico.

Só andar.

Como fazem os solitários profissionais.
Ver vitrines.

Escutar fragmentos de conversas.
Entrar numa livraria sem comprar nada.

Caminhar por ruas residenciais onde nada acontece.
E justamente por isso tudo acontece.

Talvez me sentasse num banco ao fim da tarde
vendo o céu mudar de cor. 

Como grande possuidor de um luxo.

Fazer algo sozinho.
Deliberadamente sozinho.
Como quem pratica uma arte antiga.

Na janta, tudo de novo.

Mas com mais domínio.
Mais precisão.
Mais elegância.

E então, como prêmio secreto do dia,
abriria uma garrafa de vinho.

Com solenidade.
Como se inaugurasse um território secreto.

Serviria uma taça. Talvez duas. Jamais três.

A luz refletindo no copo.
Um vermelho quase criminoso.
Um pequeno excesso permitido.

Depois, um filme antigo.
Reconfortante.
Talvez em preto e branco.
Talvez pessoas fumando perto de janelas.

Ou um livro.
Ou um som de fundo discretamente entusiasmado.

E eu me esforçaria ferozmente para permanecer em silêncio.
Como quem guarda um voto.
Como quem protege uma corrente inquebrável.

Como se fosse sagrado.

Porque o silêncio
talvez seja a única coisa capaz de revelar os detalhes mais discretos
e magníficos da vida:

o gelo rachando no copo,
o tecido rangendo ao sentar,
a pausa entre dois pensamentos,
a cidade respirando do lado de fora,

e a beleza insignificante das pequenas coisas
que só aparecem quando ninguém fala.

Depois dormiria.
Com a mesma solenidade com que se fecha um livro.

Apagaria a luz
como quem encerra uma cerimônia.

E no outro dia,
faria tudo de novo.

E então eu viveria assim.

Em silêncio.
Não por ausência.
Mas por devoção.