Ei, guri...
Tu sempre achou bonito ser herói de homem, né?
Proteger teus iguais, selar tuas lealdades
Mas quando era mulher pedindo socorro… cadê?
Tu sumia nas tuas vaidades
Se escondia no próprio ego inflado
Escudo pros teus, firme e armado
Mas pra mim… só silêncio calculado
Foi criado pra proteger marmanjo
Mas pra mulher virou lâmina, aço, arranjo
Fala de respeito, empatia e cuidado
Mas só pratica isso no lado que te é confortável
Quando sou mulher… eu viro ameaça
Viro cobrança, viro desgraça
Sou espelho do que tu não encara
Sou mudança que te rasga e te dispara
Mas se fosse teu amigo…
Tu corria, tu abraçava, tu erguia
Pra mim era silêncio, corte e ironia
Um desprezo fino que se repetia
E eu acreditei…
E acreditar foi meu maior pecado
Deitei na tua cama achando que era abraço
Mas era laço, nó apertado
Me despi de alma, corpo e orgulho
Achando que amor mudava teu casulo
Que se eu sangrasse o bastante por nós
Tu criava asas… mas foi só ilusão feroz
Tu dizia que não era tua intenção
Mas tua “não-intenção” me cortava na mão
Navalha invisível, repetição dura
Ferida aberta que sempre era tua
Porque quando EU dizia “não foi intenção”…
Tu distorcia, cuspia, virava condenação
Cravava em mim tua frustração
Como se eu fosse o alvo da tua confusão
Fiz de mim abrigo
Fiz de mim remendo
Mas entendi, tarde, mas entendo
Tu não queria colo… tu queria governo
Queria me dobrar, me moldar, me enquadrar
Queria me diminuir pra te validar
E toda vez que eu tentava levantar
Tu corria rápido pra me podar
E eu… tola
Achando que amor inteiro cura metade
De um homem que só conhece passagem
Que nunca sustentou verdade
Achei que meu corpo nu era conexão
Que te dava acesso ao meu coração
Mas só te entreguei um mapa completo
De como me ferir sem permissão
Tu se veste de “cara legal”, gentil, bom moço
Mas isso é só máscara, tu não é abraço, é poço
Um poço fundo, escuro, sem direção
Onde mulher cai achando que encontrou chão
Tu fala doce
Tu fala certo
Tu fala manso, quase desperto
Mas teu olhar sempre pedia silêncio incerto
Descanso da minha voz, da minha dor
Da minha intensidade, do meu amor
Porque mulher sentindo demais, pra ti
Sempre vira excesso, nunca valor
E agora eu vejo
Agora eu entendo
Teu amor era jaula pintada de lar
Era faca lambida dizendo que tava protegendo
Era promessa que nunca saiu do papel
Era inferno vendendo ingresso pro céu
Era mentira bem contada, bem dita
Era prisão disfarçada de conquista
Tu não ama mulher, tu ama controle
Ama se ver no reflexo de quem te acolhe
Ama ser centro, ser cuidado, ser rei
Mas quando é tua vez… tu nunca vem
Tu some
Tu falha
Tu foge da própria batalha
Te perde na própria muralha
E eu…
Eu aprendi
Depois de cair, de dobrar, de sangrar
Eu finalmente me vi
Amor que machuca não é lar
Não importa o quanto eu tente salvar
Homem que foge de si mesmo
Sempre vai usar alguém pra se ocultar
Mas agora não
Agora eu rompo
Se teu amor era prisão
Eu quebro cada elo, cada ponto
Se tua voz me calava…
A minha agora ecoa,
Se tu achava que eu era tua…
Hoje eu me afirmo: eu sou pessoa
Eu sou minha
Inteira
Sem coleira, sem fronteira
Sem tua sombra rasteira
E tu?
Tu vai seguir nesse personagem eficaz
Enganando quem ainda não te vê…
Mas nunca mais me engana mais
— Naiumi
São Paulo, de 2025.
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