Naiumi Rodrigues

Ilusão com Data de Validade

Ei, guri...

Tu sempre achou bonito ser herói de homem, né?
Proteger teus iguais, selar tuas lealdades 

Mas quando era mulher pedindo socorro… cadê?

 

Tu sumia nas tuas vaidades 

Se escondia no próprio ego inflado 

Escudo pros teus, firme e armado 

Mas pra mim… só silêncio calculado

 

Foi criado pra proteger marmanjo 

Mas pra mulher virou lâmina, aço, arranjo 

Fala de respeito, empatia e cuidado 

Mas só pratica isso no lado que te é confortável

 

Quando sou mulher… eu viro ameaça 

Viro cobrança, viro desgraça 

Sou espelho do que tu não encara 

Sou mudança que te rasga e te dispara

 

Mas se fosse teu amigo… 

Tu corria, tu abraçava, tu erguia 

Pra mim era silêncio, corte e ironia 

Um desprezo fino que se repetia

 

E eu acreditei… 

E acreditar foi meu maior pecado 

Deitei na tua cama achando que era abraço 

Mas era laço, nó apertado

 

Me despi de alma, corpo e orgulho 

Achando que amor mudava teu casulo 

Que se eu sangrasse o bastante por nós 

Tu criava asas… mas foi só ilusão feroz

 

Tu dizia que não era tua intenção 

Mas tua “não-intenção” me cortava na mão
Navalha invisível, repetição dura

Ferida aberta que sempre era tua

 

Porque quando EU dizia “não foi intenção”… 

Tu distorcia, cuspia, virava condenação 

Cravava em mim tua frustração 

Como se eu fosse o alvo da tua confusão

 

Fiz de mim abrigo 

Fiz de mim remendo 

Mas entendi, tarde, mas entendo 

Tu não queria colo… tu queria governo

 

Queria me dobrar, me moldar, me enquadrar
Queria me diminuir pra te validar 

E toda vez que eu tentava levantar 

Tu corria rápido pra me podar

 

E eu… tola 

Achando que amor inteiro cura metade 

De um homem que só conhece passagem 

Que nunca sustentou verdade

 

Achei que meu corpo nu era conexão 

Que te dava acesso ao meu coração 

Mas só te entreguei um mapa completo 

De como me ferir sem permissão

 

Tu se veste de “cara legal”, gentil, bom moço 

Mas isso é só máscara, tu não é abraço, é poço 

Um poço fundo, escuro, sem direção 

Onde mulher cai achando que encontrou chão

 

Tu fala doce 

Tu fala certo 

Tu fala manso, quase desperto 

Mas teu olhar sempre pedia silêncio incerto

 

Descanso da minha voz, da minha dor 

Da minha intensidade, do meu amor 

Porque mulher sentindo demais, pra ti 

Sempre vira excesso, nunca valor

 

E agora eu vejo 

Agora eu entendo 

Teu amor era jaula pintada de lar 

Era faca lambida dizendo que tava protegendo

 

Era promessa que nunca saiu do papel 

Era inferno vendendo ingresso pro céu 

Era mentira bem contada, bem dita 

Era prisão disfarçada de conquista

 

Tu não ama mulher, tu ama controle 

Ama se ver no reflexo de quem te acolhe 

Ama ser centro, ser cuidado, ser rei 

Mas quando é tua vez… tu nunca vem

 

Tu some 

Tu falha 

Tu foge da própria batalha 

Te perde na própria muralha

 

E eu… 

Eu aprendi 

Depois de cair, de dobrar, de sangrar 

Eu finalmente me vi

 

Amor que machuca não é lar 

Não importa o quanto eu tente salvar 

Homem que foge de si mesmo 

Sempre vai usar alguém pra se ocultar

 

Mas agora não 

Agora eu rompo 

Se teu amor era prisão 

Eu quebro cada elo, cada ponto

 

Se tua voz me calava… 

A minha agora ecoa, 

Se tu achava que eu era tua… 

Hoje eu me afirmo: eu sou pessoa

 

Eu sou minha 

Inteira 

Sem coleira, sem fronteira 

Sem tua sombra rasteira

 

E tu? 

Tu vai seguir nesse personagem eficaz
Enganando quem ainda não te vê… 

Mas nunca mais me engana mais

 

— Naiumi

São Paulo, de 2025.

 

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