Fabrício Hundou

VAI COLÁGENO

mais um centímetro de pele no meu pescoço lustroso 

uma avenida feita com muito esforço

o túnel saindo da minha boca

rumo à cidade do meu perigoso gozo

 

estou mais envelhecido

calculadamente mais vaidoso

lamurioso no divã até penso no adjetivo “melindroso”

 

encarar-se no espelho é o procedimento mais invasivo

esperar sentado é doloroso

 

sou curtido, partilhado, mas no medo: sou o único amigo

na esbórnia, sigo ungido, vangloriado y destemido

ressaqueado, o débito nunca é timido

 

da Análise à “skincare”

o homeoffice quer um homecare

excesso de vírgula / sopa sem colher

ser Peter Pan - ninguém me quer

menos colágeno 

exige mais fé

y

o poema se torna duvidoso

pro poeta que renasce 

com esforço

 

Fabrício Hundou