O Dia em que o Chão Dividiu a Casa
Claudio Gia, Macau, RN, 28 de abril de 2026
?Entre o turno e a prece, o sal do corpo e o sal da terra,
os povos plantavam memórias mais fundas que o gado e o aço.
Hoje, porém, a data inscreve um outro traço:
não só a mão que cai no fosso, mas a voz que a guerra enterra.
?No galpão, no canavial, no poço sem janela,
o trabalho ceifa seus mortos a cada vinte e quatro horas.
As máquinas de olhos frios contam horas**,**
e o sangue vira estatística amarela.
?Mas o marco que assinalas – e que nos parte a espinha –
é quando a mãe se vira contra a filha de leite,
e a sogra**,** contra a nora que promete;
quando a própria sombra na cozinha é faca e linha.
?Lucas falava de um fogo descido sobre a casa,
não do sol que queima as costas do sem-terra,
nem da gripe que vem da poeira da serra,
nem da lama que engole o garimpeiro e não extravasa.
?Assim, neste 28 de abril, lembramos dois mortos: o do turno e o do mito.
O primeiro jaz no atestado; o segundo, aflito,
dança no arquivo que o Estado desfez.
?E os povos originários, que nunca tiveram patrão,
apenas o céu como teto e o rio como vias,
olham a data – e veem novas companhias
envenenando a água, reescrevendo a canção.
?Marco histórico? Sim, o da fratura exposta:
o trabalho que mata, a família que se torna hostil,
e a memória, essa operária sem pala nem luva,
carregando nos dentes a bandeira que ninguém aprova.
?Macau, Rio Grande do Norte, abril de 2026
– o chão ainda treme do lado de quem luta.