Anna Gonçalves

Já fui

Já fui rio, já fui mar,
já fui ar de alguém que precisava respirar,
já fui vento a soprar.
já fui chão, já fui céu,
já fui inferno, já fui réu,
já fui tudo que quis ser, mas não foi meu.

Já fui coadjuvante na história alheia,
já fui cenário, já fui apenas figurante em uma cena.
Já fui atriz principal na peça que eu mesma inventava,
já fui autora de versos que não rimavam,
já fui a palhaça do circo de uma alvorada.
Já fui o embrulho no estomago de alguém que não me suportava,
já fui figurante de alguém em dias que não brilhavam.

Já fui amada, já fui ilusão,
já fui amante de uma paixão,
já fui espelho e reflexo de uma falsa emoção.
Já fui a quem projetou e idealizou, como também já fui projetada e idealizada.
Já fui iludida e já iludi alguém também,
já perdi o chão e fui meu próprio chão também.
Já fui refém como também mantive alguém refém também.
Mas sempre encontrei um caminho em toda confusão.

Já fui filha, já fui mãe da minha mãe,
já fui filha do meu pai, já fui mãe do mesmo também,
já fui colo, já precisei de colo, já fui além.
Já fui aluna da vida, como professora da vida também,
já cai, mas também já fui quem quis equilibrar e ir,
já aprendi a cair, mas também já não quis seguir,
mas sempre fui alguém em busca de prosseguir.

Já fui feliz, já fui triste,
já fui amor que o tempo insiste.
já amei, já odiei, já gostei, já surtei
e em cada passo, um pouco mais eu errei e acertei.
Já fui a que não quis o queijo e nem a faca na mão,
fui a que quis a fome apenas como uma canção.

Mas agora sou o que sempre fui mas não imaginava ser,
Raiz, flor, fruto, doce e azedo,
mas que nasce, morre, ressuscita e segue adiante
mas nem sempre com um enredo.
Sou o agora, o sempre, o que persiste,
fiel as minhas origens, em cada verso que insisto.

E sigo, em cada respiro,
sempre tentando pertencer e voltar para mim.
E nisso, encontro meu complexo e completo infinito a arte de existir.