Eu virei alguém que eu jurava não ser.
Troquei meus silêncios por músicas altas,
minha calma por noites que nunca acabam,
e aquele “eu nunca faria isso”
virou só mais uma frase esquecida.
Aprendi a fugir,
não correndo, mas me perdendo.
Em copos, em risadas vazias,
em lugares cheios demais
pra não ter que encarar o vazio.
Beijei nomes que eu não lembro,
segurei mãos que não sabiam nada de mim,
e por alguns segundos
fingi que aquilo bastava.
Mas nunca bastava.
Me afastei de quem eu amava
ou talvez tenham se afastado de mim —
é difícil saber quando tudo começa a quebrar ao mesmo tempo.
E cada decepção foi tirando um pedaço
de quem eu era antes.
Até que você chegou.
E eu, que já estava cansada,
me entreguei como se ainda soubesse amar direito.
Como se não estivesse em pedaços.
Como se não tivesse aprendido
a me perder primeiro.
E você...
você não só foi embora —
você bagunçou o que ainda restava inteiro aqui dentro.
Agora eu olho no espelho
e vejo alguém que sobrevive,
mas não reconhece o próprio reflexo.
Alguém que sente falta
da versão antiga de si mesma,
mas que também sabe…
que ela já não existe mais.