Mirela

A MUDANÇA INESPERADA

Eu virei alguém que eu jurava não ser.

Troquei meus silêncios por músicas altas,
minha calma por noites que nunca acabam,
e aquele “eu nunca faria isso”
virou só mais uma frase esquecida.

Aprendi a fugir,
não correndo, mas me perdendo.
Em copos, em risadas vazias,
em lugares cheios demais
pra não ter que encarar o vazio.

Beijei nomes que eu não lembro,
segurei mãos que não sabiam nada de mim,
e por alguns segundos
fingi que aquilo bastava.

Mas nunca bastava.

Me afastei de quem eu amava
ou talvez tenham se afastado de mim —
é difícil saber quando tudo começa a quebrar ao mesmo tempo.
E cada decepção foi tirando um pedaço
de quem eu era antes.

Até que você chegou.

E eu, que já estava cansada,
me entreguei como se ainda soubesse amar direito.
Como se não estivesse em pedaços.
Como se não tivesse aprendido
a me perder primeiro.

E você...
você não só foi embora —
você bagunçou o que ainda restava inteiro aqui dentro.

Agora eu olho no espelho
e vejo alguém que sobrevive,
mas não reconhece o próprio reflexo.

Alguém que sente falta
da versão antiga de si mesma,
mas que também sabe…

que ela já não existe mais.