Não tenho medo dela.
Acompanha-me desde a infância.
A criança quieta, calada,
não estava ausente
estava pensando.
E como pensava.
Enquanto tantos corriam
para longe de si mesmos,
eu permaneci.
Abri a porta às minhas angústias,
puxei uma cadeira,
servi-lhes café amargo.
Desde então,
nunca mais partiram.
A lucidez não é minha amiga.
Amigos poupam.
Amigos mentem com delicadeza.
A lucidez, não.
É companheira de viagem:
dessas que não carregam tua mala,
mas apontam, com exatidão cruel,
o peso que há dentro dela.
Dormimos no mesmo quarto,
dividimos o mesmo teto,
o mesmo travesseiro,
o mesmo ar.
À noite, ouço sua respiração
misturada à minha,
como se fôssemos dois condenados
algemados pelo destino.
Ela não me intimida.
Encaro-a nos olhos,
fixamente,
sem baixar a cabeça,
sem fingir coragem.
Coragem, afinal,
é apenas o nome elegante
que damos ao medo
quando ele decide ficar.
A lucidez já levou muitos.
Fez pescoços aceitarem cordas,
fez corpos conversarem com o vazio,
fez pontes cumprirem
sua vocação mais sombria.
Conheço seu histórico.
Ainda assim, permaneço.
Sou insistente.
Sou teimoso.
E, acima de tudo,
sou incuravelmente curioso.
Quero ver
até onde ela pretende ir.
Que novas feridas
ainda pode nomear.
Que verdades
ainda restam para arruinar.
Entrego-me a ela,
mas sob uma condição:
que eu permaneça aqui.
Por curiosidade,
por teimosia,
ou por essa estranha vaidade
de querer assistir ao fim
com os próprios olhos.
Esse é o nosso trato.
Lucidez:
a inimiga que escolhi
levar comigo até o túmulo.
E, se depois dele
ela ainda existir,
já não haverá mundo
para ferir meus sentidos.
Não haverá angústia.
Nem noites em claro.
Nem esse nó antigo
apertando a garganta
metáfora tantas vezes,
talvez um dia matéria.
Haverá, enfim,
o grande silêncio.
E nele,
quem sabe,
até a lucidez
se cale.