Luana.amorim@

Um livro abandonado.

Recordo-me — qual se fora reminiscência enevoada de eras idas — do tempo em que nossos corpos, em doce consonância, se tangiam. Havia o vinho, havia o fumo, e eu, vagaroso, sorvia a essência da brasa, enquanto a fumaça, em espirais etéreas, ascendia ao alto, solitária, como prece muda.
E, no alçar-se desses véus cinzentos, meus olhos fitavam os teus — verde-lago, quieto e profundo — donde parecia emanar o segredo das marés e dos silêncios. Contemplava eu a feição de teus ombros, a curva de teus lábios, e éramos, então, habitantes de um instante que julgávamos eterno.
No leito repousávamos, e, por vezes, em leve desvario, dançávamos pela sala vasta, sob lustres que, em cintilações douradas, nos ungiam como se o mundo ali se findasse — e renascesse.
Mas o tempo — esse artífice implacável — passou. E, qual livro antigo, gasto pelas mãos e pelos dias, fui deixada naquela casa imensa, erguida entre nós dois, como um abismo silencioso.
Deixaste-me, enfim. E eu, cativa das horas pretéritas, permaneci — só, perdida nas dobras do que já fora. Enquanto seguias rumo a novos anos, quiçá a um novo século, fiquei eu suspensa, imóvel, naquele mesmo dia, naquele mês, naquela morada que ainda ecoa teu nome.
Partiste, e em mim restou o pó dos instantes. Tornei-me volume esquecido, repousando numa estante antiga, onde outros olhos agora percorrem minhas páginas, buscando sentido no que ainda pulsa.
E tu — ah, tu — deixaste teu próprio livro fenecer no abandono.
Já o dissera, outrora, algum poeta de alma lúcida: jamais lograste divisar a poesia que em mim habitava. Por isso a buscaste em outrem — e, ainda assim, nem nelas te demoraste, nem a elas te entregaste; antes, trocavas afetos com a mesma leviandade com que me perdeste.