VÍCIOS E QUEDAS
Lia voltou tarde naquela noite, como sempre.
A rua estava quase vazia, afogada numa melancolia seca, sem consolo. O prédio parecia menor sob a noite, como se o tempo já tivesse começado a engoli-lo. Ela parou um instante antes de entrar. Não por medo ou por costume. Como quem já sabe de cor o próprio castigo.
A porta do apartamento estava entreaberta.
Como sempre.
Lia empurrou devagar. O cheiro veio antes de qualquer coisa: o perfume doce de Júlia , e aquele resto íntimo que nenhuma memória consegue matar. Júlia estava na cozinha, sentada no chão, encostada à parede. Não parecia exatamente abatida. Parecia pior: quieta demais. Há silêncios que não pedem ajuda; pedem fim.
Lia não comentou. Fazia tempo que já não comentava quase nada.
Deixou a bolsa sobre a mesa, apoiou a mão na bancada e ficou ali, à distância exata de quem aprendeu a não tocar no que apodrece.
Nenhuma das duas falou por alguns segundos.
Era um cansaço antigo. Um cansaço sem dignidade, sem drama, sem saída.
E então a memória veio não como lembrança, mas como vício.
Meses antes, naquele mesmo apartamento, o ar já tinha esse peso sujo, de conversa que não se resolve e de ferida que não fecha. Lia estava no mesmo lugar. Júlia, no chão. Sempre o chão como se já tivesse escolhido, desde muito antes, o lugar de onde não se levanta.
— Você sempre volta, disse Júlia .
A voz saiu baixa, gasta, quase automática.
Lia ergueu os olhos.
— E você sempre deixa a porta aberta.
Era sempre assim. A mesma frase. As mesmas ruínas, só mudando o tom. Ambas conheciam o roteiro. O horror era justamente esse: insistiam em representá-lo.
Lia chegou a rir. Sem humor. Sem alívio.
— Eu tentei te odiar.
— Eu sei.
— Não consegui.
Júlia passou a mão pelo rosto, cansada até do próprio nome.
— Eu também tentei ir embora. Comprei passagem. Fiquei horas no terminal vendo ônibus partir. No fim, voltei.
Não havia orgulho. Nem vergonha. Só uma derrota bem lavada.
Lia se aproximou um pouco. O suficiente para que o ar entre as duas mudasse, mas não o bastante para virar abraço.
— A gente é ridícula.
Júlia balançou a cabeça, devagar.
— Não. A gente é doente.
O beijo veio depois disso. Não como surpresa. Como recaída. Não havia calor de verdade. Havia só memória muscular, hábito, fome velha. Quando se afastaram, Júlia ficou perto demais por um segundo, como se ainda procurasse alguma coisa que já não estava ali.
— Eu não aguento mais isso.
— Então para respondeu Lia.
Seca demais. Simples demais. Cruel demais. Mas era o tipo de verdade que só sai assim.
Júlia soltou um riso curto, quase nada.
— Você fala como se fosse fácil.
Houve uma pausa.
Então Júlia perguntou, com uma calma que doía mais do que um grito:
— Se eu for embora… você me procura?
Lia hesitou. Um instante...
— Não.
A palavra caiu entre elas sem defesa. Sem piedade.
Júlia não discutiu. Não chorou. Não implorou. Apenas calou , como quem finalmente aceita uma humilhação antiga.
Já não havia clima Naquela noite,
Lia pegou a bolsa sem dizer nada, virou as costas e tornou saiu, a porta ficou entreaberta.
Como sempre.
Mas o silêncio que ficou depois não era o mesmo. Tinha perdido a sujeira e ganhado vazio.
Uma semana depois na mesma cozinha de dias atrás a mesma cena como num ciclo vicioso de quedas sem voltas .
Mas dessa vez Lia sentiu que aquela mesma quietude agora parecia mais limpa. E mais definitiva.
— Eu vou para sempre disse, sem olhar muito para Júlia.
Dessa vez, não houve pergunta.
Não houve gesto para impedir.
Júlia apenas resmungou eu também já não aguento mas
Lia abriu a porta e parou por um segundo. Não por dúvida. Por hábito. Esperando o que já não vinha.
Nada veio. Ela saiu. A porta ficou aberta enquanto ela Caminhava lentamente pelos corredores e escadas do velho prédio , mas dessa vez lembranças e presságios a acompanhava
O rádio, esquecido em algum canto, tocava uma música antiga. A voz, arrastada e alheia, atravessava o apartamento com palavras que pareciam erradas e, ainda assim, precisas demais:
“Estátua… cofre… paredes pintadas…”
Júlia ficou sentada por alguns instantes depois que Lia saiu. O silêncio já não pesava. Só vazava. E, estranhamente, isso não a assustou.
Levantou-se com calma.
Foi até o quarto, abriu a gaveta e tirou o envelope pardo. A foto ainda estava lá: duas meninas rindo como se o mundo fosse simples, como se bastasse sentir para que tudo se sustentasse.
Ela olhou longo tempo.
Não tentando recuperar nada.
Só confirmando que já tinha perdido.
— Eu não existo fora disso… murmurou.
Não havia mentiras na frase. E foi justamente por isso que doeu mais.
Não havia impulso.
Não havia escândalo.
Só um esgotamento fundo, desses que não pedem salvação pedem término.
Guardou o envelope e foi até a janela.
A fábrica abandonada do outro lado da rua parecia devolver sua imagem: imóvel, inútil, entregue às próprias rachaduras .
Apoiou as mãos no parapeito.
O vento tocou seu rosto com uma gentileza indiferente.
Pensou em Lia.
Não com esperança.
Com lucidez.
Ela não vai voltar a tempo, ou talvez nunca mas volte..
Não havia mágoa nisso. Só a verdade e a verdade, às vezes, é a forma mais limpa de crueldade.
Lia ainda descia lê também as escadas com uma sensação estranha, sem nome. Algo no corpo reconhecia o que a cabeça ainda se recusava a admitir. Chegou à calçada, empurrou a porta do prédio e saiu.
Então viu.
O corpo de Júlia estava ali, imóvel, desalinhado do mundo, como se a realidade tivesse errado o lugar onde o deixou. Por um segundo, Lia não entendeu. O olhar tentou reorganizar a cena, inventar alguma lógica decente para aquilo. Mas não havia. Nunca houve.
Ela ergueu os olhos devagar.
A janela do quinto andar estava aberta.
A cortina se movia com o vento.
O rádio continuava tocando, agora com outra voz, outra sentença:
\"Me diz o que você vai ser quando você crescer\"
E, naquele instante, tudo fez sentido com a clareza obscena das coisas tardias.
O silêncio.
A ausência de reação.
A facilidade com que Júlia a deixou ir.
Não era desistência da noite.
Era uma despedida.
Lia deu alguns passos, quase sem perceber. Parou perto do corpo, mas não tocou.
Como sempre.
E só então entendeu, tarde demais, que não era sobre ir embora ou voltar.
Júlia não precisava que ela ficasse naquela noite.
Precisava que tivesse ficado em t
odas as outras.
Lá em cima, a porta continuava aberta.
Mas, pela primeira vez, não haveria ninguém esperando.