#Poema dos Quatro Ofícios
Claudio Gia, Macau/RN, 25 de abril de 2026
25 de abril: nem só de cravos se faz a liberdade.
Há parasitas no sangue da memória
e um anjo de batina que os nomeia —
a ditadura ergueu-se na vitória
de um evangelho que a razão gorjeia.
Mas eis que o DNA se desenrola
em dupla hélice de luz e tirania:
a contabilidade que consola
os mortos sem planilha, sem agonia.
Salvador nasce em mapa de poeira,
São Marcos escreve o leão que ruge o Verbo,
e o cravo rubro, em pétalas de cera,
derruba o cargo, o cargo de superbo.
Hoje o mosquito aprende geometria
e o livro-caixa chama-se verdade —
cada vetor da sua nostalgia
calcula a curva da fatalidade.
A hélice gira, o santo deita o machado,
a Bahia reclina o seu cordão;
no ar, um general descomissionado
respira a pólvora da contrição.
Assim se funda a pátria do instante:
quatro datas num só dia, quatro vozes —
malária, gene, débito, constante
de um cravo que já nasce depois dos ouriços.