Conto: O Merendo do Araguaia
Era tempo de seca braba em Matrinchã, Goiás. O calor rachava o chão e a vontade de fugir da cidade era maior que a de trabalhar. Lá moravam dois primos que nem unha e carne: Tonzão e Preto.
Tonzão era daquele tamanho que assusta cachorro na rua. Braço grosso, voz de trovão, coragem de sobra e juízo de menos. Preto era o oposto: magrelo, quieto, sério. Nunca tinha posto um gole de cachaça na boca e se orgulhava disso. “Pra fazer besteira já basta o Tonzão da família”, ele dizia.
Quando chegou setembro, os dois resolveram que precisavam de temporada.
— Vambora pra Aruanã, Preto — Tonzão decidiu. — Lá tem amigo, tem Araguaia e tem peixe dando sopa.
— E tem polícia também, Tonzão. Cê sabe que tarrafa é proibida, né?
— Uai, a gente vai só pra tirar o gosto da viagem. Uns piauzinho. Ninguém vai saber.
E assim começou o causo. Dois primos, uma bicicleta, uma tarrafa escondida na mochila e muito excesso de confiança.
— Tonzão, cê tá doido? Ir pra Aruanã de bicicleta nesse calor?
— Uai, Preto. Lá tem amigo, tem rio e tem peixe. E bicicleta não bebe gasolina.
E foram. Chegaram em Aruanã com a língua pra fora. Dormiram a tarde inteira na rede do compadre Zé da Ponte.
Acordaram quando o sol já tava caindo.
— Levanta, Preto. Vamo pegar uns piau pra nós tirar o gosto da viagem — falou Tonzão, desenrolando a tarrafa.
— Tirar gosto? Eu nem bebo, Tonzão. Cê sabe.
— Então tira o gosto com farinha, uai. Mas eu vou querer uma dosezinha — Tonzão riu, forte que só ele. — Deixa a cachaça comigo.
Beira do Araguaia. Noite fechada. Só a lua e os muriçoca.
Tonzão jogou a tarrafa três vez. Na quarta veio seis piauzinho mixuruca, batendo no barranco.
— Eita desgrama — Preto resmungou. — Isso aqui nem dá um frito direito.
— Cala a boca e ajuda a guardar — Tonzão respondeu, enfiando os peixe na sacola. — Já é madrugada. Vamo voltar antes da mãe do Zé acordar e reclamar da bagunça.
Foi na hora que um facho de lanterna cortou o mato.
— Corre, Preto! Corre que é o Ibama! — Tonzão largou a sacola e disparou que nem capivara assustada.
Preto ficou. Olhou pro lado, olhou pro outro.
— Uai, correr por quê? Nóis tá só…
— CORRE, PRETO! — a voz do Tonzão já vinha de longe, abafada pelo mato.
Preto entendeu nada, mas quando primo grita, a perna obedece. Começou a correr também, tropeçando em raiz, batendo canela em toco.
— PARADO! PARADO AGORA SENÃO ATIRO! — gritou uma voz grossa atrás dele.
Preto travou no meio do passo. Levantou as duas mãos pro céu, igual em filme de bang-bang, e ajoelhou na terra úmida. O coração saindo pela boca.
— Eu merendo! Eu merendo! — gritou, sem ar.
Silêncio.
— Eu… eu me rendo! — corrigiu, vermelho até a alma.
Tonzão, escondido atrás de uma árvore uns vinte metro na frente, escutou o “merendo” e não aguentou. Caiu na gargalhada.
— Kkkkkkkkkkkk! Merendo! Esse Preto merenda até pro Ibama!
Os três fiscais do Ibama saíram do mato segurando o riso. Um deles tossiu pra disfarçar.
— Levanta, cidadão — falou o mais velho. — Cê tá pescando com tarrafa. Isso aqui é proibido no Araguaia, sô.
Tonzão voltou, passo de quem tá indo pro paredão. Pôs a sacola no chão.
— Seu policial, foi só seis piauziinho — mostrou. — Lá em casa nem mistura tem pra temperar isso aqui. Foi só pra enganar a fome.
O fiscal olhou pros peixe, olhou pro Preto ainda ajoelhado, olhou pro Tonzão tentando segurar o riso.
Suspirou. Pegou a tarrafa.
— A rede fica. E pra vocês não voltar de mão abanando e fazer besteira de novo, toma.
Tirou três pintado médio do barco deles e jogou na sacola dos menino.
— Agora some. E o senhor aí — apontou pro Preto —, da próxima vez fala “me rendo”, não “merendo”. Senão a gente te prende por passar fome em serviço.
Preto levantou catando folha seca da calça.
— Foi o susto, seu moço…
Na estrada de volta, empurrando a bicicleta, os dois não aguentaram.
— Merendo! — Tonzão começou.
— Cala a boca, Tonzão! — Preto tentou ficar bravo, mas riu junto. — Cê me deixou sozinho, corno!
— Sozinho não, uai. Cê tava bem acompanhado do Ibama! Kkkkkkk!
— E cê? Forte pra quê? Pra correr e me deixar?
— Uai, forte pra rir da tua cara! “Eu merendo”! Kkkkkkk!
Riram a volta inteira. Chegaram em Aruanã de dia claro, com três pintado na sacola e uma história pra vida toda.
Zé da Ponte escutou o causo na varanda.
— Então quer dizer que o Preto merenda e o Tonzão é o garçom?
Mais risada. Até os pintado, se tivesse ouvido, tinha rido.
Moral da beira do rio:
Peixe pequeno dá trabalho grande.
Correr sem saber, vira piada.
E tarrafa em mão errada termina sem tarrafa, mas com história boa pra contar na farofa.