23 de abril de 2026: O Dia que Não É Feriado (mas devia)
(Claudio Gia, Macau/RN, 23 de abril de 2026)
Quinta-feira, 23 de abril.
O calendário não marcou nada demais.
Não há mártir enforcado, não há capital inaugurada,
não há feriado nacional — apenas o normal que persiste,
o cotidiano que range, o cansaço que insiste.
Mas espera:
23 de abril é Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor.
Cervantes e Shakespeare morreram nesta data —
ou quase, porque o calendário é um embuste, uma armadilha.
E enquanto o Ocidente celebra a página escrita,
o Brasil lê menos de um livro por ano e ainda acha que é fino.
Monteiro Lobato, porém, não morreu nesse dia.
Nasceu em 18 de abril de 1882 — data vizinha, quase irmã.
Mas sua obra vive em cada 23 de abril quando uma criança
abre O Sítio do Picapau Amarelo e encontra
Emília, a boneca de pano mais falante do Brasil,
Visconde de Sabugosa, Narizinho, Pedrinho,
Tia Nastácia que cozinha e ensina,
Dona Benta que conta história e filosofia.
Lobato não foi santo, é verdade.
Escreveu coisas que hoje doem nos olhos e no peito —
visões de seu tempo, manchas na página clara.
Mas também plantou no chão brasileiro a semente da leitura,
do faz-de-conta, da ciência, do espanto.
Sem ele, talvez o Sítio fosse só um pasto.
Sem ele, talvez a criança pobre nunca visse um livro.
23 de abril de 2026:
as escolas deveriam parar um minuto
para lembrar de Emília dando um piti —
\"Reinações de Narizinho\", \"Memórias da Emília\",
\"Caçadas de Pedrinho\", \"Geografia de Dona Benta\".
Mas o Sítio hoje está em disputa:
uns querem queimar, outros querem recontar,
poucos querem ler de verdade.
Dia de São Jorge, o santo guerreiro da espada e do dragão.
No Rio, é festa de umbanda, sangue na pedra, fé no chão.
Em Catalão, é feriado municipal — e a política local
dança conforme a música do coronel que ainda manda no curral.
Dia da Educação no Chile.
Dia da Língua Inglesa na ONU.
Dia do Choro no Brasil — o gênero, não a lágrima da rua,
embora um e outro se confundam quando a fome é aguda e nua.
E cá pra nós:
o que há de poesia num dia comum de abril?
Há a mulher que pega dois ônibus e ainda sorri.
Há o professor que não recebe e dá aula com o mesmo terno.
Há o nordestino em São Paulo sendo chamado de \"terno\".
Há o garçom que sonha em ser poeta — e é, mas ninguém lê.
Há o candango aposentado que construiu Brasília e hoje pede na rua um café.
E há a criança que ainda descobre Lobato,
mesmo com a escola indecisa,
mesmo com a internet gritando,
mesmo sem o Sítio na televisão.
Essa criança, amanhã, vai escrever o novo poema.
23 de abril não tem hino, não tem coro, não tem desfile.
Tem a respiração miúda de quem sobrevive no fio do fuzil.
Tem o metalúrgico que o Lula foi, mas os novos Lulas estão no anonimato.
Tem o têxtil que ninguém vê, a costureira com dedo de contrato.
Tem um livro aberto em algum lugar — e alguém lendo em voz baixa:
\"Era uma vez um sítio...\"
E amanhã, 24, o mundo segue.
O feriado nacional do dia 21 já virou foto no celular,
o poema do dia 22 ninguém leu,
e o do dia 23... bem, você está lendo agora.
Isso já é um milagre menor.
Um milagre que Lobato, lá atrás, já previa:
\"Um país se faz com homens e livros.\"
Data: 23 de abril de 2026
Quinta-feira.
Não esquecida. Apenas silenciada.
Mas com Lobato no bolso — e Emília falando mais alto.