Anna Gonçalves

Inventário do oblívio

É imperativo cessar a manutenção do que não se sustenta,
estancar o fluxo que alimenta espectros e ideais.
Não mais a ostentação do desejo, nem o esforço hercúleo
de organizar o caos de quem habita apenas o plano onírico.
Ao acordar hoje e ao pedir sabedoria, entendi que a mudança é uma quimera,
uma iteração infinita que nunca se transmuta em fato.

Nesta vida, a verdadeira via de fato é a assepsia do olhar,
aceitar a inércia alheia e cultivar o próprio oblívio.
Ignorar o relato não é apagar a história, mas retirar dele a sua carga gravitacional.
Desvincular o que foi do que
                                 [poderia ter sido],
deixando que o tempo opere sua lenta e necessária erosão.

Daqui a algumas décadas e décadas, quando o baú da memória for entreaberto,
que o registro não evoque o aperto no plexo ou a asfixia da dúvida.
Que a lembrança surja destituída de patetismo e risos,
apenas como um fragmento daquele idioma,
um resto de narrativa que se tornou inofensivo,
ao ponto de provocar não o choro, mas o riso meridiano.

No fundo desse inventário, onde o lodo finalmente secou,
restarão apenas as crônicas de um tempo de aprendizado.
Histórias para contar, sem o peso da sentença,
celebrando a soberania de quem aprendeu que viver
é muito mais do que tentar consertar o mecanismo avariado de um outro.