Maicon Rigon

Intimidade com o Escuro

Há uma tristeza dentro de mim
Que, como galho enxertado, vingou
Não é visita, nem passagem
Criou raiz, floresceu em silêncio
E hoje me habita por inteiro

Já não a distingo de mim

Aprendi seus hábitos
O peso exato dos seus passos
O som quase mudo com que chega
E a forma como se deita
Sem pedir licença
No lado mais fundo do peito

Fiz dela companhia
Daquelas que não se escolhe
Mas que, de tanto ficar
Acaba ficando certa

Ela me olha com firmeza
Todos os dias
Como quem sabe demais
E diz pouco

Deixe-me a sós com ela
Há coisas que não se mostram
Nem a quem se ama

Tenho medo que te toque
Que te leia
Que te leve um pouco de mim
E te ensine esse idioma escuro
Que ninguém deveria aprender

Quero te proteger
Do que em mim é noite constante

Fique com a tua luz
Mesmo que eu nunca mais a alcance

Porque eu…
Eu já me tornei este lugar

Onde a tristeza não ecoa
Ela mora

E, às vezes, penso
Que sem ela
Eu não saberia existir

Não me reconheço leve
Não me imagino inteiro
Não me desenho em cores

Fui moldado nas sombras
E quem me ensinou a ser
Foi ela

Minha mais fiel presença
Minha mais antiga verdade

A tristeza que me fez
Talvez, um dia, por cansaço ou piedade
Desate seus nós em mim
E me conduza de volta
Ao nada de onde veio

Porque o nada…
Ainda que vazio
Não fere
Não insiste
Não permanece