(Lucien Vieira)
Assim como o admirável Manoel de Barros —
gênio do “Inutensílio” —
também tenho um “lugar de ser inútil”.
Nele,
invento as minhas viagens do desver,
onde estrago o ócio
com as cantigas de ninar, o deslabor.
E me retiro da mira dessa serpente
que sustenta os pregos do ego.
Mas, longe disso,
o meu quintal —
cercado por muros enfermos,
tortos, desrebocados, em ruína —
é apenas o meu pequeníssimo mundo:
não é mundo.
Sou estado de semente,
deitado no solo molhado da razão,
apodrecendo para nascer.
Nascer das histórias transcritas
nas paredes sujas destas ruas,
entre morros de monturos malcheirosos
e chorumes,
que turvam o olhar do belo que há
deste lado de cá.