#Terras Raras
por Claudio Gia, Macau RN, 22.04.2026
Há quinhentos anos, uma nau de cruzes surgiu onde já existiam cinco milhões de olhos, cinco milhões de nomes para o mesmo chão, cinco milhões de modos de dizer terra .
Descobrimento — palavra de quem não sabia que o vento nordeste sopra em dois sentidos: um traz os estrangeiros, outro leva o ouro, e agora leva o neodímio, o lantânio, o itérbio.
Casualidade do tempo — eis o eufemismo com que a História maquia suas feridas: a Serra de Lajes, o Cabugi, o litoral potiguar foram primeiro abraço, depois cicatriz.
Hoje, 22 de abril, duas datas se sobrepõem como eclipses de sentido: o Descobrimento que foi invasão, a Terra que é Planeta e é minério.
Dizem que há terroristas no subsolo brasileiro, mas só existem terras raras — aquele oxímoro geológico onde a raridade se torna commodity, onde o subsolo vira pretexto, onde proteção ambiental rima, ironicamente, com intervenção militar .
No carreirão da noite em escuro, muitos planetas se movem. São os satélites espionando reservas, são as nações orbitando o Brasil como outrora as caravelas orbitaram a costa, esperando o vento favorável, o pretexto favorável, a casualidade favorável.
E nós, que não temos feriado nacional, temos o feriado existencial: o dia em que a terra se lembra que foi terra antes de ser Brasil, que foi Brasil antes de ser mercadoria, que será silício, será ímã, será alvo, mas continua, obstinadamente, terra.