Dói-me o espaço vazio onde o teu corpo não habita, Essa distância que se estende como um deserto de vidro, Onde o meu grito se perde e a tua voz não ecoa. Mas há um consolo amargo, uma paz que me sacrifica: Saber que, na tua distância, o perigo não te alcança, Que estás em segurança, sob um céu que não desaba.
Prefiro o meu martírio à tua vulnerabilidade.
À noite, o meu quarto torna-se um templo de sombras, Onde me deito para buscar o que o dia me rouba. Fecho os olhos e, no teatro do invisível, eu te encontro; Sinto a textura dos teus beijos, o peso do teu abraço, Recolhendo os fragmentos de mim que ficaram em ti, Tentando retomar o pedaço que falta no meu peito.
Sou um anjo de asas pesadas, curvado pela saudade, Pois este sentir já não cabe apenas no meu peito solitário. Esta dor não é mais minha, nem apenas tua; Ela tornou-se a nossa liturgia, o nosso altar compartilhado. Somos dois pontos distantes unidos por um mesmo sofrimento, Escrevendo uma história no silêncio das estrelas.
Mesmo que a distância me sangre e a depressão me envolva, Amo-te na segurança do teu porto, longe das minhas tormentas. Espero o dia em que a saudade deixará de ser ponte Para tornar-se, finalmente, o chão onde voltaremos a pisar.