Francisco Claudio Claudio Gia

#Ecos de um 21 de Abril (versão candanga)

#Ecos de um 21 de Abril (versão candanga)

 

(Claudio Gia, Macau/RN, 21 de abril de 2026)

 

Nas dobras do calendário, um eco de enforcado

— Tiradentes esquartejado, vísceras na estrada,

mas a língua do alferes ainda solta, ainda ousada.

Silvério dos Reis, o nome que ficou manchado,

vendeu a conjura por moedas e um cargo dourado.

E o mártir de barba rala vira estátua de fachada.

 

Noutro traço do mesmo dia, Brasília desabrocha

não nas curvas de Niemeyer, mas nas mãos dos casacos —

nordestinos de alpercata, de pele cor de brocha,

que vieram com a seca nos ossos e os filhos no embaraço.

O avião de concreto que nunca decola, no chão,

foi levantado a cimento, a fome e a solidão.

Niemeyer assina o risco; o candango assina o calo.

E a capital, de perto, cheira a coivara e a abalo.

 

Vem o Dia da Criatividade e da Inovação:

as IAs correm mais rápido que o medo.

Em milésimos de segundo, a máquina dá razão

a quem não pediu. O mundo é um enredo

reescrito por algoritmos – e o poeta, perplexo,

ainda busca o verso que o metal não flexiona.

 

Dia do Metalúrgico: Lula, o ABC, a mão calejada

que um dia subiu à rampa do Planalto.

Honrarias do mundo inteiro em sua jornada,

mas o chão de fábrica ainda lhe sabe o salto.

Dia do Têxtil: o tear, a linha, a costura anônima –

enquanto a política veste sua roupa cínica.

 

Dia da Latinidade: a língua mãe, a fratura.

Dia das Polícias: civil e militar, duas facas

que deveriam cortar juntas a noite escura.

Um ministério de segurança, uma ponte, uma trégua –

mas o feriado é fixo, a data é nacional,

e o Brasil repete o gesto, o rito, o ritual.

 

21 de abril de 2026:

o mártir, a capital de braço nordestino,

o metal, a têxtil, a criação devorando o destino.

Que sentido há em comemorar a traição, o suor anônimo,

a inteligência artificial que esquece quem a fez de barro?

Apenas que o tempo é uma roda – e a história, um cansaço.

E que os casacos do cerrado, hoje, são cinzas e esquina,

mas sem eles não há asa, não há nave, não há Brasília que alucina.