A gente tem essa mania —
eu, você, a vizinha e até o gato —
de achar que amor é uma planta autossuficiente,
dessas que sobrevivem ao esquecimento
e ainda florescem no domingo
enquanto a gente maratona a própria distração.
Mas não é.
Amor, descubro com certo atraso elegante,
é mais parecido com um carro antigo:
faz barulhos estranhos se ignorado,
pede óleo, cuidado,
e às vezes um pedido de desculpas
dito com a delicadeza de quem reaprende a falar.
(E eu, que mal sei trocar lâmpadas,
queria amar como quem acende e pronto.)
“Antes de fazer a mala”, me digo,
com a voz meio mãe, meio filósofa de esquina,
“antes de chamar o Uber da fuga definitiva,
confere o motor.”
E então volto — não com os pés,
mas com essa estranha máquina do tempo
que chamam de memória.
Lembro.
Da primeira viagem desastrosa,
onde tudo deu errado
e, curiosamente, tudo fez sentido.
Do riso escapando pelos cantos,
como se a felicidade fosse um erro de cálculo.
Lembro do olhar dele —
aquele,
quando eu me achava um rascunho malfeito,
e ele me lia como poema publicado.
(Quem autorizou essa confiança toda?)
E havia o abraço.
Ah, o abraço —
essa arquitetura invisível
onde eu cabia sem precisar me explicar.
Se o amor está por um fio,
penso, com uma calma quase suspeita,
que esse fio seja feito de lembranças —
não dessas que pesam,
mas das que puxam de volta
como um convite gentil.
“E agora?”, me pergunto,
num diálogo interno com minha versão mais dramática.
“Agora você decide”, responde a outra,
a que bebe água e pensa melhor.
Se depois de tudo
o coração não der aquele salto meio ridículo,
meio sincero,
ok.
Nem todo silêncio é abandono,
às vezes é só o fim da música.
Mas há algo que aprendi —
com certa ironia e algum carinho:
não se joga fora um amor
como quem limpa a geladeira numa terça qualquer.
Há coisas que a gente passou a vida inteira tentando encontrar
e, quando encontra,
acha que veio com garantia eterna
e manual automático.
Spoiler: não veio.
Por isso, fico aqui,
entre partir e ficar,
como quem segura uma xícara quente
sem saber se sopra ou se bebe.
E sorrio, de leve,
porque no fundo — no fundo mesmo —
amar talvez seja isso:
essa dúvida bem cuidada
que a gente insiste, teimosa,
em não abandonar.