jairjunior

um.sonho

No princípio era a escuridão 

foi divertido ver a luz aprisionada na escuridão 

no tempo não coincidia o mesmo interesse 

não havia medo e os porquês tão pouco permaneciam 

não havia respostas porque não sobreviviam as perguntas 

nada era incerto onde o certo não havia 

e veio a ocupação quando os olhos se abriram

estive tão bem por um período sem saber sobre a dor 

logo veio o eu e com ele vieram as dúvidas 

do certo nada se soube

da luz nada se via

um tatear sem nenhuma certeza na busca que viivia 

uma dor que me fez deitar 

e ninguém mais me conhecia

foi então que no final pude compreender 

a luz que queria já estava em mim

ocultada nas entrenhas 

depois de tanto ranger descobri quem sofria

era o eu que tudo tinha e nada sabia 

a luz resplandeceu num imenso céu 

sem as convenções que o eu idealizou 

apreço vestido com uma consciência sem nome 

a viagem ganhou outro rumo

no chão meus pés caminhavam

surgiu o brilho encoberto que sempre existiu 

a escuridão não pilhava pela fresta da incerteza

todo o tempo esteve dentro de mim

a volta da compreensão já não tardou 

a alegria vinha dele 

do sol que sempre existiu 

meus olhos se ergueram

meus passos ficaram firmes 

na certeza inalada pelas narinas 

era o sinal que o alvo estava por perto 

toda dependência caiu em terra úmida 

desse cair nasceram os frutos de uma clara existência 

como o filho que volta depois de uma longa jornada

era eu de novo ressurgindo da extensa reclusão 

mais um passo de volta pra casa 

muito pequeno esse passo

mas já sabia sobre o caminho

já podia sentir o perfume das flores 

as cores da nova jornada brilhavam sob o raio da luz intuida 

onde as perguntas não mais cabiam

meu contentamento era gigante 

nada para traz levou meu olhar 

para frente uma história chamando de volta o relegado brilho

nesse sorriso permanente vi primeiro meu pai feliz 

com seus braços fortes estendidos 

em sua mão uma flor 

uma flor que jamais vira 

a flor era uma rosa de brilho vermelho

e a rosa era minha mãe 

por detraz

uma corrente de gente que viveu como eu adormecido 

parecia que todos queriam me abraçar

como se abraça o pródigo 

era eu generoso sem saber que era tão bom 

andava perdido de um amor nunca visto 

as lágrimas vertiam não como a tristeza de antes

acrescentava uma emoção genuína 

pelo encontro dos corações apartados

o encontro da pátria perdida 

estava com todos que também era eu

em pedaços divididos espraiados a espera da corrente navegável

levantei desperto na madrugada 

foi lindo esse meu sonho

meu dia despertou com passos rápidos 

fui na venda comprar o peixe que não pesquei

achei alfaces robustas e alhos compatíveis 

voltei para o mundo com o olhar diferente 

o dia era quente

e esse dia de calor era intenso e forte

como forte era eu 

gastei tudo que não tinha para dar a mim e a todos o que sempre quis 

nada disso foi mais revelador que as horas insones

nasceu de mim um novo e esquecido ser

um novo mote 

um novo norte

uma nova sorte 

com o sorriso presente e os passos firmes 

caminhei sorrateiramente 

ninguém via meu caminhar diferente

e eu sentia a leveza alegre do caminhar

flutuei entre os semáforos no asfalto quente 

todo o calor que sentia por dentro vinha do sonho que sonhei

nada que vivi foi tão maior que a rosa vermelha 

nada foi mais forte que os braços de meu pai

voltei para casa e deitei no mesmo sonho insistente 

foi tudo que pude expressar 

em um gesto que só meu corpo pôde perceber 

em um entendimento que só minha alma percebia 

o mundo estava igual 

o que havia em mim trazia a igualdade do mundo 

mesmo num lampejo 

era pura a realidade desconhecida 

tal a figuração de um sonho 

que transformou meu dia

em um dia de amor sincronizado 

a espera de outros sonhos que jamais sonhei

mesmo perdidas as horas de dormir 

nessa perca eu me reencontrei 

com os sonhos tão reais como o calor do próximo dia

foi só um sonho que sonhei