Arde em meus nervos um clarão tardio,
Que à mínima lembrança já se incendeia,
E, em cada pulsação, cresce o triste vazio
Que tua ausência, devagar, ainda semeia.
Bebo o delírio em goles desmedidos,
Como quem busca a própria perdição,
E os pensamentos, tão turvos e feridos,
Fundem-se, tristes, num febril turbilhão.
Teu vulto surge entre a névoa perturbada,
E, ao tocá-lo, logo desfaço-me em calor,
Pois toda carne em mim, já consumada,
Se prostra ao jugo cego do delirante ardor.
E sigo assim, sem trégua ou equilíbrio,
Entre a cruel vertigem e a lucidez tardia,
Bebendo em ti meu doce e vil martírio,
Até que reste em mim apenas a agonia!