Sinvaldo de Souza Gino

Conto: O SilĂȘncio da Fanfarra

Conto: O Silêncio da Fanfarra

Era uma vez um menino das chácaras de Matrinchã. Ele estudava no Colégio Estadual Arthur da Costa e Silva e tinha um sonho simples, mas que batia forte no peito: tocar na fanfarra no desfile de 7 de setembro.

Quando saiu o aviso da inscrição, ele foi o primeiro da fila. Esperou o Seu Barbaré chegar com a lista na mão e escreveu o nome com a letra caprichada: _presente_. Naquela noite mal dormiu, imaginando o peso do surdo na barriga, o barulho bonito descendo a avenida.

No dia do primeiro ensaio, chegou cedo. O pátio ainda tava vazio, só o sereno no chão. Aos poucos os meninos foram chegando, em bando, fazendo zoeira. Quando o maestro liberou os instrumentos, foi uma correria. Quem pegou, pegou.

Ele ficou parado, esperando chamarem pelo nome. Afinal, tinha sido o primeiro a se inscrever. Tinha chegado primeiro. Na cabeça dele, era regra, era justo.

Mas não chamaram.  
— Não tem mais surdo, menino. Fica pra próxima — disse o maestro, já ocupado com outro.

Ele olhou em volta. Tinha menino com dois pratos, outro segurando a caixa que nem tinha se inscrito. Uns que falaram “ah, vou só ver qual é” e saíram com o instrumento na mão.

Criou coragem e foi falar:  
— Professor, eu fui o primeiro a fazer a inscrição. Cheguei primeiro hoje também. Não é justo.

O maestro passou a mão no rosto, cansado.  
— Acalma, filho. Ano que vem você toca. Hoje já tá tudo distribuído.

Ele engoliu seco. Guardou a vontade e disse:  
— Tá bom. Mas ano que vem eu quero tocar. Não deixa acontecer de novo, não.

E esperou. Um ano inteiro. Contou os dias no calendário da cozinha. Treinou batucando na lata de tinta, no cabo da enxada. Chegou setembro de novo, fez a inscrição de novo, primeiro da fila de novo.

No dia do ensaio, chegou antes do sol. E a história se repetiu igualzinho: correria, grito, menino pegando instrumento sem nome na lista. Quando acabou, ele tava lá, de mão vazia.

Dessa vez não falou nada. Só sentiu o peito ficar pequeno.

Foi aí que começou a perceber o resto. No recreio, os apelidos: “pé de poeira”, “chacareiro”, “filho do barro”. Na hora do futebol, a bola não vinha. Se vinha, alguém gritava “sai, que cê nem sabe”. Nos trabalhos de grupo, sobrava por último. Os professores? Uns nem olhavam no olho. Outros só chamavam quando era pra buscar o apagador.

Ele entendeu que não era só a fanfarra. Era ele. Era de onde vinha, era o jeito de falar puxado, a roupa desbotada do trabalho na roça. Era como se tivesse uma placa invisível nele escrito “não é daqui”.

Passou a ir pra escola calado. Assistia ao ensaio da fanfarra de longe, encostado no pilar. Decorou o ritmo de cada peça, só de ouvir. Batucava com o dedo na perna, no ritmo certo, sem errar uma.

No 7 de setembro, viu os colegas passando na avenida, fardados, batendo com força. Teve gente que bateu palma. Ele bateu também, mas a mão não fez barulho. O peito sim. Doeu.

Naquela noite, deitado na rede, olhando o telhado, ele pensou: “Se eu não sirvo nem pra bater tambor, sirvo pra quê?”

A diferença foi que, em vez de deixar o silêncio vencer, ele resolveu fazer barulho do jeito dele. Juntou umas latas, esticou um plástico de ração no lugar do couro, amarrou com câmara de pneu. Fez baqueta com cabo de vassoura. E começou a tocar.

Tocava no terreiro, depois da lida. Tocava pra galinha, pro cachorro, pros pés de manga. O ritmo era o mesmo da fanfarra, só que mais solto, mais dele. Um dia o Seu Barbaré passou na estrada, ouviu o batuque e parou a bicicleta.  
— Quem tá tocando aí, sô?

Ele apareceu, meio sem jeito.  
— Sou eu.

Seu Barbaré entrou, sentou no toco e escutou. Quando o menino acabou, o velho coçou a cabeça.  
— Menino, cê leva jeito. Por que não tá na fanfarra do colégio?

Ele deu de ombros.  
— Lá não tem vaga pra mim, Seu Barbaré.

O velho ficou quieto um tempo. Depois disse:  
— Então vamo fazer uma fanfarra que tenha. Aqui na chácara mesmo.

E fizeram. Juntou mais três meninos que também ficavam de fora, umas meninas que queriam aprender. Seu Barbaré ensinou o que sabia, e o menino ensinou o que tinha inventado. No outro 7 de setembro, não desfilaram na avenida principal. Desfilaram na rua de terra, na frente da capela, pra comunidade das chácaras.

O povo saiu na porta pra ver. Bateram palma de verdade. E o menino, com o surdo de lata no peito, batucou tão forte que espantou todo apelido, todo recreio sozinho, todo “não é daqui”.

Ele aprendeu que, às vezes, a porta que a gente tanto espera abrir não abre. Mas isso não quer dizer que a música acabou. Quer dizer que a gente tem que construir o palco onde cabe a nossa batida.

E naquela fanfarra da chácara, ele era o primeiro da fila. E ninguém tomava o lugar dele.