O que fazemos quando perdemos alguém que não sabíamos que amávamos tanto? A dor de perder uma pessoa que você sabia que amava é insuportavelmente admirável. É como se os papéis estivessem se invertendo. Porque, quando você sabe que ama alguém e a perde, seu peito dói; é como se sua alma estivesse sendo queimada em um lugar onde só existe o vácuo, pois o fogo se propaga de uma forma diferente. Não queima com uma dor física que possamos provar com palavras ou feridas, mas queima, inexplicavelmente, de uma forma bela e admirável. A alma não se acalma, porque a revelação tardia faz questionar a própria realidade.
Diferente é quando a situação é amar alguém e não saber até perder. Meu peito não dói; ele ainda acha que não a amo. Minha mente sabe o que está por vir e está claramente consciente do quanto iremos sofrer. Sei disso porque pareço calmo; conheço esse sentimento: aceitação. Talvez, por experiência própria, essa forçada aceitação do que acabou e do que há de vir foi desencadeada.
Querendo ou não, ainda sinto que algo em mim se foi. Quero entender por que a queimação é diferente agora. Claramente existe outra coisa e não o vácuo, porque posso descrevê-la com palavras — não exatamente, mas de uma forma em que eu me sinta seguro ao afirmar que é isso que sinto. Meu mundo não desabou como em vezes passadas; pareço um tanto mais maduro, ou talvez seja apenas a calmaria antes da tempestade.
Agora a dor está indo embora, meu peito está se acalmando. Tenho minhas dúvidas se realmente a amei ou se já aceitei que a perdi. Este mundo está me deixando fora das minhas próprias raízes. Não entendo o que sinto, quando vou ser eu mesmo ou quando vou sentir algo que não é verdade. Ou, talvez, seja verdade, e achar que não é seja apenas minha forma inconveniente de proteger a mim mesmo.
E no silêncio que restou no fundo da minha alma, talvez eu encontre outra alma perdida que ansie por sensações não esquecidas e sentimentos ainda latentes. Não me veja mal, é uma via de mão dupla: preciso de uma alma para tampar o meu vazio. Não procurarei uma alma livre desse sentimento para não amaldiçoá-la a tal estado digno de pena. Irei atrás de uma semelhante, que vence ao absorver os próprios pecados e foge do outro sem olhar para trás primeiro.
Não sei, talvez eu descubra na próxima decepção. O mundo é magnífico e a vastidão das emoções humanas é como um véu negro onde não se vê o fim nem o começo. Arrisco-me a mergulhar nas minhas próprias emoções e desvendar a vastidão da minha própria insignificância. Minha alma se foi; talvez volte quando uma outra aparecer. Minha mente irá refletir e meu corpo absorverá toda a informação. Já meu coração... ele irá ansiar, ansiosamente, para reviver as sensações, emoções e fantasias antes perfeitas, fazendo-o bater sem limites.