Eu sinto o mundo alto demais, fora do tom,
como um rádio chiando, sem estação, sem som.
Enquanto eles dançam na mesma canção,
eu tento entender o compasso do coração.
Ser assim não é erro, é intensidade,
é amar sem medida, sem metade.
Eu não sei fingir, nem amar pouco,
eu sou inteiro — e o mundo acha isso louco.
Foram três histórias que o peito guardou,
três cicatrizes que o tempo não apagou.
A primeira foi brisa que o vento levou,
não foi falta de amor… foi espaço que faltou.
Eu lutando por tempo, por atenção,
dividindo o que era pra ser só conexão.
No fim eu virei só mais um na multidão,
um detalhe perdido no meio da decisão.
A segunda doeu mais fundo, sem disfarçar,
foi quando eu tive coragem de me revelar.
Falei quem eu era, sem esconder nada,
mas fui julgado sem nem ter estrada.
Meu jeito virou defeito no olhar de alguém,
e eu fiquei me perguntando: “amar assim não tá bem?”
A terceira… nem teve explicação,
foi silêncio gritando dentro do coração.
Um bloqueio seco, sem aviso, sem porquê,
como quem some e esquece de dizer.
E eu fiquei preso na dúvida cruel:
“o problema sou eu ou o mundo que é assim, tão infiel?”
Agora eu ando com medo de me entregar,
de abrir meu mundo e alguém não ficar.
Medo de ser muito, medo de não ser nada,
de ser intensidade numa vida rasa.
Tenho medo de falar que sou assim,
e ver mais alguém desistindo de mim.
Medo de amar fundo e me perder no final,
de dar tudo de novo e receber o banal.
Ser autista é sentir em alto volume,
é amar sem filtro, sem medo, sem ciúme.
É ter um universo dentro do peito,
e mesmo assim acharem que é “jeito errado”, “defeito”.
Mas mesmo cansado, mesmo com dor,
ainda resta um pedaço que acredita no amor.
Mesmo com medo, querendo fugir,
tem algo em mim que insiste em sentir.
Quem sabe um dia alguém vai chegar,
e ao invés de ir embora… vai escolher ficar.