Ayalah VerĂ´nica Berg

Aquele dia...

 

O demônio pescava à beira do lago,
e o beijo que roubei foi meu primeiro desencargo. 

Minhas escolhas são raras,
mas de um gosto sutil:
minha graça é uma armadilha montada. 

Ele veio com uma forma estranha de falar,
uma conversa rouca, me seduzir.
Falou que eu era selvagem, raiz e mistério,
que fugia de um fogo
para cair no próprio inferno. 

A raiva que veio logo se dissolveu,
e a ironia em meu sangue secou. 
Só vejo o tédio, a sombra, o vazio.
A voz dele e a minha em um só ritmo. 

Cada palavra é um fio de luz escura e pura,
um medo que sinto com doce amargura. 
E no silêncio, nosso desejo se funde:
meu coração, um pouco sinistro, respira mais fundo. 

É um amor tranquilo, profundo e trespassado,
a mais bela ilusão que eu jamais imaginei.  


Aquele dia... 
 de Ayalah Verônica Berg