O demônio pescava à beira do lago,
e o beijo que roubei foi meu primeiro desencargo.
Minhas escolhas são raras,
mas de um gosto sutil:
minha graça é uma armadilha montada.
Ele veio com uma forma estranha de falar,
uma conversa rouca, me seduzir.
Falou que eu era selvagem, raiz e mistério,
que fugia de um fogo
para cair no próprio inferno.
A raiva que veio logo se dissolveu,
e a ironia em meu sangue secou.
Só vejo o tédio, a sombra, o vazio.
A voz dele e a minha em um só ritmo.
Cada palavra é um fio de luz escura e pura,
um medo que sinto com doce amargura.
E no silêncio, nosso desejo se funde:
meu coração, um pouco sinistro, respira mais fundo.
É um amor tranquilo, profundo e trespassado,
a mais bela ilusão que eu jamais imaginei.
Aquele dia...
de Ayalah Verônica Berg