Conto: O despacho.
De primeiro, em Matrinchã, todo mundo conhecia os compadre. Albelírio — mas ninguém chamava assim, só Belmiro pra encurtar a prosa — e Mariano. Os dois eram que nem unha e carne. De dia na roça, de tarde na beira do Rio Vermelho, de vara na mão, contando lorota de lambari que parecia dourado.
Numa dessas sextas de lua grande, ficaram no rio até perder a hora. Quando viram, já era madrugada fechada, daquela que até o coruja dorme. Montaram nas bicicletas, cada um com sua vara atravessada no quadro, e vieram cortando o estradão de terra, rumo às casas.
O atalho passava rente ao cemitério velho, aquele desativado lá depois da ponte, saída da cidade e entrada para Agrovila. Capim alto, sem muro. Dizia o povo antigo que assombração morava lá, mas Albelírio e Mariano tinham mais medo era de mulher brava esperando em casa do que de defunto.
Naquela noite o sereno tava branco. Quando passaram no ppéde árvore Albelírio freiou de repente.
— Êpa, compadre, repara.
Mariano encostou.
Debaixo dum pé de jatobá, bem na entrada do campo santo, tinha um despacho arrumado: três velas acesas, uma garrafa de pinga da boa ainda lacrada, um monte de farofa amarela e uma galinha assada, inteirinha, cheirosa que só.
Os dois se olharam. A fome da pescaria apertava e a goela tava seca.
— É de quem, será? — Mariano cochichou, já com o olho na galinha.
— Uai, de quem achou primeiro — respondeu Albelírio, que de bobo só tinha a cara. — Defunto não come mais, compadre. E desperdício é pecado.
Não pensaram duas vezes. Encostaram as bicicletas em duas cruzes maiores que tavam firmes, tiraram o chapéu em respeito — porque mal educado eles não eram — e sentaram. Mas não tinha banco. Então sentaram foi no piso de cimento de uma das covas antigas, que tava lisinho, bom de assentar.
Mariano destampou a pinga. Derramou um pouco da pinga e disse: essa é para o santo. E deu início dos goles, um gole pra ele, um gole pro Albelírio, um pra tu, um pra eu, um pra eu e um pra tu... A farofa tava temperada, daquela que desmancha na boca. A galinha, então, saiu no osso. Primeiro a coxa, depois a sobrecoxa, o peito, até a sambiquira. Quando viram, só tinha um montinho de osso limpo e as velas quase no fim.
Beberam toda pinga. Comeram quase toda farofa. A barriga ficou forrada e a coragem voltou.
Aí Albelírio limpou a boca na manga da camisa, suspirou fundo e reclamou:
— Arre, compadre. Tava tudo bão demais. Só faltou um cigarrinho de palha pra fechar a boquinha. Aí é que era o paraíso.
Mariano deu uma gargalhada que ecoou no cemitério inteiro. Juntou os ossos da galinha num montinho, ajeitou do lado das velas, como quem agradece o dono da festa.
— Deixa, Belmiro. Pra próxima a gente traz o fumo e fica quite.
Na outra sexta, não deu outra. Assim que o sol caiu, Albelírio passou na venda do Seu Ze Goiano e comprou um maço de palheiro.
— Pra pagar o que é devido, compadre — disse pra Mariano, piscando o olho.
Foram pro Rio Vermelho de novo. Dessa vez o peixe tava manhoso, não saiu nem piranha. Meia-noite e nada. Pegaram as bicicletas e voltaram pelo mesmo atalho.
Quando chegaram no cemitério, o jatobá tava lá. Mas debaixo dele, nada. Nem vela, nem garrafa, nem farofa. Só o capim e o silêncio.
Albelírio coçou a cabeça.
— Uai. Será que o dono do despacho tá chateado que a gente comeu tudo?
Mariano, que era mais matreiro, apontou pro chão. No mesmo piso de cova onde tinham sentado, tinha um palheiro aceso, soltando fumacinha, equilibrado numa pedrinha. Do lado, um toquinho de vela queimando.
Os dois arriaram da bicicleta na hora. Não falaram nada. Albelírio pegou o palheiro, deu duas tragadas fortes, e devolveu pro lugar. A fumaça subiu reta, sem vento.
— Tá pago, então? — Mariano perguntou pro escuro.
Ninguém respondeu. Só o vento no jatobá fez um barulho que parecia um “hum” de quem concorda.
Desde aquele dia, Albelírio e Mariano nunca mais passaram no cemitério velho sem deixar um palheiro aceso no pé da árvore. E dizem que, nas sextas de lua grande, quem passa tarde da noite ainda vê duas bicicletas encostadas nas cruzes, e dois vultos rindo, comendo galinha que não é deles.